O que você fala para um aluno pode ser lembrado para o resto da vida

Lembrei-me de um evento que aconteceu em sala de aula há uns anos. Se não me engano, era segundo ano do ensino médio.

Enquanto eu fazia, na lousa, o esquema do que ia explicar, superlativo de adjetivos, alguns alunos copiavam, outros esperavam, e outros conversavam baixinho.

Bem atrás de mim, estavam duas garotas falando de um rapaz; ninguém da turma; era de um rapaz que elas diziam achar “uma gracinha”. Às vezes, era “lindo” que usavam, e sempre em tom de exclamação.

No meio da conversa, que eu transformei em fim de conversa, uma delas disse: “Que nariz lindo que ele tem!”

“Meninas” – eu disse – “nenhum nariz é bonito, se vocês prestarem bastante atenção.” As duas, depois de se entreolharem, olharam boquiabertas para mim, e com elas, a turma toda. Minha intromissão, abelhudice deve expressar melhor o que quero dizer, seduziu o silêncio absoluto da turma. “O nariz de qualquer pessoa, que é feio por si só, somente vai parecer bonito se estiver no meio de um rosto bonito, com olhos bonitos, com sorriso e cabelos bonitos; enfim, em um conjunto bonito. É claro que ele ajuda o conjunto, pois nenhum rosto ficaria bonito sem nariz porque, para nós, tudo que anda tem e precisa ter nariz. Já estamos acostumados com narizes.” Uma agulha seria ouvida se caísse ao chão neste momento. Minha empolgação pelo assunto se inflou de tal forma que acabei conjeturando que, se arrancássemos o nariz de qualquer pessoa e o pendurássemos na parede, sua feiúra venceria por unanimidade da turma. “Vocês achariam bonito o nariz desse rapaz, aqui, pendurado na lousa, esquecendo-nos da suposta violência ao arrancá-lo, ou imaginando que tivesse sido tirado carinhosamente?” “Não” – balançaram a cabeça rs. “Então, pronto!”

Algum tempo depois, menos de três anos, mais de dois, saindo do drive thru de um fast food, ouvi alguém gritando: “Professor! Professor!” Para ser honesto, não reconheci quem eram as pessoas, como de praxe, mas já sabia que se tratava de aluno ou ex. “Estaciona aí e vem comer aqui com a gente!”

Ah! Eu fui, né? E lá vinha eu, provavelmente como esquisito por quem me via, com o saquinho de papel, como se estivesse levando a própria comida à festa. Sentei-me com eles e, claro, a esta altura, já os tinha reconhecido. Eram, de fato, ex-alunos. Todos já frequentando a faculdade, crescidos, com panca de adultos, namorando, com aspirações por coisas sérias da vida, a caminho do inevitável: tornarem-se grandes adultos.

Conversa vai, conversa vem, e de repente, uma das duas meninas, estavam quatro, eu era o quinto, disse: “O senhor se lembra da sua opinião do nariz, aquilo que disse que todo nariz é feio?” Não precisava da palavra “senhor” (nestas horas você se vê envelhecendo à velocidade da luz), mas fiquei quieto rs.

Na verdade, eu já nem me lembrava dessa teoria azonzada, criada ao improviso, tendo como base os dois buracos feios que servem para a gente respirar e se assoar, montinho de carne e de cartilagem desengraçado rs, e claro, para se enfiar, muitas vezes, dependendo do dono, onde não é chamado rs.

Todos nós rimos, recapitulando os detalhes “sórdidos” do nariz arrancado e pendurado na lousa.

Mais tarde, depois de muita conversa jogada fora, vim embora pensando na memória desses alunos. Que incrível!

A partir daquele dia, decidi que qualquer coisa dita em sala de aula, se você for um professor que conquistou o respeito de seus alunos, seria relembrada por algum deles em algum lugar. Existem as bobagens, as burrices também, e estas não serão esquecidas também não, viu?

Por isso, quem é professor precisa ter tino na hora de expor sua opinião.

Ainda bem que naquele momento da aula, o objeto de discussão era um simples e reles nariz e que, em inglês é “nose”, cuja pronúncia é aproximadamente /nôuz/. O certo é, em inglês britânico, /nəʊz/.

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4 Comments

  1. Isso ainda vai dar um livro…rs
    Muito bom recordar e vc o está fazendo perfeitamente.
    A gente não esquece mesmo certos professores ou certos assuntos. Que bom ter sido um assunto leve a ser lembrado e que bom ter um professor que “mete o nariz na conversa’, dá uma lição e ainda é recordado por anos.
    Mas não concordo, há narizes lindos! Tenho uma irmã e uma sobrinha que parecem que os têm esculpido à mão, tão lindos são.
    Beijo, Édi.

    Curtido por 1 pessoa

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