Quem, de vez em quando, não gosta de sentir saudade?

A inspiração vem ao improviso, de surpresa, senta-se ao seu lado, rela a mão no seu ombro e puxa assunto com você, discretamente. Bem disse a amiga de FB Iara Gonçalves: Acalme-se. Ela virá. E veio, em forma de amigo de anos, de quando éramos crianças, por volta dos catorze ou quinze.

– Lembra-se que íamos juntos à escola?

– Claro que me lembro.

– Lembra-se que, num dia das mães, tínhamos de nos apresentar todos juntos e cantar Como é Grande o Meu Amor por Você? Você foi corajoso!

– Disso eu não me lembro. Me ajuda a refrescar a memória. Por que fui corajoso? – ri eu.

– Todos ficaram com medo de cantar, e você disse que cantaria sozinho.

– E eu cantei?

– Cantou.

– Bem? – ri de novo.

– Sim. E foi muito aplaudido.

– Eu também me lembro que você foi chamado para interpretar para um pessoal que veio dos Estados Unidos à casa do dono da fábrica de bordados. Me senti toda orgulhosa porque você era meu amigo.

Aqui, visitando o passado, conforme a conversa foi se desenrolando, comecei, ao mesmo tempo, a pensar: um garoto de quinze anos, vivendo em uma época em que CDs não existiam, eram fitas cassetes, as pessoas as rebobinavam com um lápis ou com uma caneta, quem tinha aquele toca-fitas portátil era praticamente chique, e vídeo-cassete era ainda mais, teria condições de falar um idioma estrangeiro à altura e, além disto, ter a sensibilidade para notar que alguém se orgulhava de sua amizade?

Bom – comecei a me justificar – simplicidade era, para toda a turma, um invólucro; a vaquinha para o refrigerante, uma das nossas diversas alegrias; e as piadas sem maldade, uma das nossas felicidades. Viver nas entrelinhas, inacessível!

Naquela época, creio que jamais teríamos acreditado na futura existência da Internet, caso alguém se atrevesse a antecipá-la, sentávamos na calçada para bater papo à noite, depois da escola, mesmo tendo de trabalhar no outro dia. Vez ou outra, cantávamos Seguindo no Trem Azul ao violão, amadoramente tocado por mim. Todos trabalhávamos. Eu, na fábrica de cadeiras – precisava pagar os fascículos semanais do curso de inglês – achava o máximo a fita cassete que acompanhava rs. Outra, na fábrica de bordados. Outro, o filho do dono da fábrica, que já sabia dirigir, o que, para nós todos, era o que chamávamos de “ser para frente”, também na fábrica. Mais um outro, no sítio do pai; e o outro, na única vidraçaria da cidade.

Uma vez, lembro-me perfeitamente, o cachorro pastor alemão do vizinho escapou e veio em direção a nós. De repente, tinha mais ninguém na calçada. Um pulou o muro de casa. O outro subiu na árvore da frente de casa. O outro correu para a casa dele, e eu pulei, atleticamente, o muro junto com o primeiro. Depois disto, nunca mais ficamos à vontade na calçada; sempre alertas. O cachorro do vizinho espiava a gente, tenho certeza, e eu acredito, com toda uma fé de quem tem medo de pastores alemães, que seu dono o soltou propositalmente, e com êxito rs. Era provável que ele não gostava das nossas conversas àquela hora da noite. Queria dormir em paz, creio.

Com o tempo, todos nós nos mudamos de casa. Uns, de cidade. Eu fui, mas voltei; e o outro ficou por aqui. Quase todos casados, com filhos de vinte anos ou mais. O vizinho ficou lá, e lá, no mesmo lugar, está até hoje.

No mesmo lugar está também a constelação que costumava observar pela janela aberta até cair no sono. No mesmo lugar, vejo quando passo de carro, está a casa onde morava, a calçada reformada, sem a nossa árvore. Tem outra no lugar. E uma casa, inexistente na época, ao lado. Eu já me prometi passar a pé por lá qualquer dia desses.

Inevitavelmente, todos evoluímos para algo e algum lugar nesta vida. Uns, para lá. Outros, para cá. Todos para rumos diferentes para, um dia, revivermos, com genuína saudade, os dias vividos com intensidade profunda, apesar de, lá, na época, não nos darmos conta do quanto era bom. Era bom, a gente gostava daquilo tudo. Só nos faltava compreender.

E o vizinho? Ah, o vizinho já tinha evoluído para aquilo que já era. Casado, com filhos crescidos e fora de casa, carro na garagem. Eram ele, a esposa e o pastor alemão, uai! rs

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7 Comments

  1. Querido obrigada por lembrar de mim, e já que lembraste vou dizer que estava certa.
    Quando ela volta, volta pra arrasar.
    Adorei tua história,
    Mas eu adoro tudo que escreves e me divirto sempre,
    Beijos

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  2. Então…Recordar coisas boas é bom demais, mas a minha memória não é lá essas coisas, pouco me lembro. Mas, se “puxar” por ela, creio que terei algumas boas recordações. Então, o moço já cantava, ainda adolescente, e nem se lembrava? Com esse vozeirão, imagino que encantou também!
    Lindos causos para serem compartilhados, e vc o faz muito bem, Édi.
    Beijo.

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  3. Amigo , fiquei muito emocionada em ler essas lembranças ,se naquela epoca ti achava corajoso,continuo achando e ti admirando muito mais
    ,amei ,arrasou …………….bjos

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