Uma das minhas tristes histórias

De repente, a vista se escurece. Estrelinhas começam a flutuar a sua frente, como se fossem fogos de artifício. O corpo, desobedientemente, desaba. Involuntariamente, seus ouvidos começam a falhar. Você apenas sente mãos segurando e arrastando você.

Vozes soam longe, cada vez mais longe, como se sua alma estivesse flutuando para fora do corpo. Você se vê adentrando um espaço desconhecido, não muito amigável, em que nunca esteve antes. Tem a certeza de que não sabe o que está acontecendo, mas antecipa, de algum modo, que algo sério, não experimentado, está a caminho, esteja você disposto a isto ou não.

Você é tomado por uma sensação de profunda tristeza, como se tudo, do nada, começasse a tomar tonalidade de despedida, interrompendo a diversão do seu dia. A estranheza do inédito, a tristeza repentina, indagações, a vida, a sensação de estar sendo sufocado por algo que não se decide entre a dor impalpável e o desconforto amordaçante, tudo começa a perambular dentro dos seus pensamentos, e você fica sem saber, ao certo, a qual dar mais atenção, ou importância. Você não tem saída, a não ser entregar-se ao que, aparente e inevitavelmente, está fadado.

Seu corpo, enfraquecido, está jogado onde deixaram até chegar ao hospital da pequena cidade, no banco de trás de um carro. Você não consegue levantar sequer a cabeça para, pelo menos, poder verificar que ainda tem um pouco de controle de si mesmo. Na verdade, você está à total mercê de quem se dispôs a ajudá-lo, com a esperança de que consigam, e à mercê do que tem de ser será, marionete das vontades da vida, ou da morte, do destino…

Você ouve a apressada e ruidosa subida do carro pela rampa de entrada do hospital, atalhando a tranquila mesmice do lugar. Ele para, e vêm, sem titubear, ao seu encontro, ao seu socorro. Colocam você numa cadeira de rodas, que mais uma vez ratifica uma possível seriedade da situação, e levam você pelo corredor frio, abrem uma porta às pressas, colocam você sobre uma maca, ali, sozinha e à espera de quem chegar primeiro. Fazem roda a sua volta e começam a investigar sua condição. De um momento para o outro, de imbatível, forte e resistente, você se vê evoluído a uma fragilidade absurda que, até então, não sabia lhe pertencer.

Com sorte, você não chega a desfalecer, mas tampouco tem a nítida certeza do que está acontecendo, do que estão dizendo entre si. Às vezes, você procura, com certa dificuldade, algum rosto, algum olhar, que denunciem a gravidade, se ela existir de fato, da situação, da sua situação, mas ninguém está disposto a mediar a verdade até você – pelo menos parece que não.

Minutos vão se passando, gente entra e sai, vozes não falam nada definitivo, e por fim, colocam remédio sob sua língua. A partir daí, você começa a entender duas coisas: você está gravemente doente e, segundo, já sabem o que fazer, porque já têm um nome para a condição em que se encontra, apesar de ainda não terem lhe informado.

Resolvem, então, levar você a outro lugar, a outro hospital, certamente maior, que tenha mais recursos. Mais recursos para quê? Porque seu caso é sério – você conclui. Você já sabe que não voltará para casa naquele dia. Talvez nem no outro. Esqueça-se dos planos noturnos. O que está acontecendo, meu Deus?

Na ambulância, que desobedece aos limites de velocidade, uma médica e uma assistente estão à beira do seu leito, olhando para você, falando com você, tentando distrair você, como se distrai uma criança de uma dor, com promessas insinuadas de que logo tudo estará resolvido: Fique calmo. Já estamos chegando. Não faz questão de disfarçar a compaixão em seu olhar, chama seu nome com delicadeza, parecendo não querer que você caia no sono e, às vezes, aperta a sua mão a fim de reafirmar que você não está só.

De repente, a sedação se interrompe, e você abre os olhos, vê que não mais está na ambulância. Há outras pessoas a sua volta, umas de pé, outras também deitadas. A movimentação do lugar, aparentemente apertado, chama sua atenção. As de pé são aquelas que estão cuidando de você. As deitadas são aquelas que precisam de ajuda médica, como você. Como eu? – você se pergunta, desesperadamente angustiado – por quê? Uma hora atrás, você acha que se passou só uma hora, jamais imaginaria que estaria onde está, como está. Mas como estou? – tudo ainda não está muito claro em sua cabeça.

– Fique tranquilo. Meu tio também passou por isto e está bem agora – alguém vestido de branco lhe diz, sem dizer mais que estas poucas palavras, que pouco contribuem para a sua compreensão. Por isto o quê? – você se pergunta, antes de voltar a ficar inconsciente, de novo, pela sedação.

De supetão, você ouve que está sendo conduzido às pressas para algum lugar. Uma sala com uma máquina grande e estranha, que gira acima de você, escaneando seu corpo, e conforme gira, produz um som desconhecido, revelando imagens em monitores também acima.

Uma voz descreve o que vai fazer e, rapidamente, dá ordens a outras. Alguém lhe diz que vai sentir uma agulhada. Você se lembra só da agulhada, e nada mais, quando acorda com mãos que, agilmente, pressionam seu peito a fim de trazê-lo à vida. Quanta coisa inusitada, meu Deus!

No outro dia, parecia que era outro dia, você acorda com alguém dizendo seu nome. Você abre os olhos e vê que está em um lugar estranho. Você nunca viu algo igual.

Você vê que tem duas pessoas, um homem e uma mulher, de branco a sua frente. Começam a conversar com você. Você espera que, no meio da conversa – na verdade, era mais um monólogo do que uma conversa – haja uma boa notícia. Mas ela não vem, não estava acabado ainda o que começaram na noite anterior. Pedem que seja forte, que ature o que tem de aturar; e em seus rostos, apenas a imparcialidade que lhes é peculiar, que convivem, diariamente, com a dor alheia, remediando e tentando curar a dor alheia, deixando claro que a sua dor era apenas mais uma dor recém-chegada, e que precisa, leve o tempo que precisar, ser também curada, como a de todos os demais ali.

O que acabam de dizer-lhe é que, por algum motivo ainda não muito bem explicado, porque, para você, nada está muito bem explicado, você chegou à beira do fim dos seus dias. Que foi por um triz, não fosse pela condição em que tudo se deu, o seu pulso teria, para sempre, parado de pulsar, descansado eternamente.

É seu coração pedindo socorro…

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4 Comments

  1. Uau, que texto.
    Que bom que tudo ficou bem!
    Sei não se eu terminaria esta “viagem” mentalmente são. Aliás, sei sim. “Não” é a resposta
    Ufa, profundo este. Impossível não se imaginar no seu lugar. Excelente.

    Curtido por 1 pessoa

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