Emocionei-me

Hoje de manhã, eu senti uma pontada de tristeza.
Enquanto esperava uma amiga fazer um exame oftalmológico, tinha ido acompanhá-la, sentei-me, na lanchonete do outro lado da rua, a uma mesa, com três cadeiras vazias. A lanchonete foi posta ali de propósito para, principalmente, os que vão ao hospital. Nota-se um vaivém contínuo, uma rotatividade enorme de pessoas; umas, esfaimadas após suas consultas; outras, esfaimadas antes, e outras, acompanhantes, motoristas, e até mesmo funcionários do hospital.
Minutos depois, um senhor e uma senhora se aproximaram. Eu estava sozinho à mesa, e, em sendo assim, havia duas cadeiras vazias.
– A gente pode sentar aqui? – a mulher perguntou.
– Claro – eu disse.
Em seguida, já sentados, a pedido do marido, e depois de fuçar a bolsa por dinheiro, ela se levantou para ir buscar algo de comer.
De repente, de lá do meio do povo, um moço, num paletó desbotado, pelejando para combinar com as calças surradas destoantes, mas com uma humilde vontade de parecer adomingado, junto de uma mulher idosa, em seus cabelos branquinhos, levantou-se de sua mesa e perguntou à senhora da recém-chegada, a que se levantou da “minha mesa”, se ela tinha um real para poder juntar com a nota de dois que ele balançava no ar. “Queria comprar um salgado para minha mãe”, ele acrescentou. Disse também que se levantaram muito cedo para a consulta de sua mãe e que moravam em Ilha Solteira.
Olhei, de novo, para a mulher que o acompanhava. Encolhida, braços cruzados, olhando pro próprio colo, parecendo estar pronta para “nãos”, mas que deixava a entender que seria resistente às durezas da vida, quando viessem. Ninguém não seria capaz de pensar na própria mãe ao observá-la. Alguém que já viveu o dobro de mim e muito mais do que a maioria de nós ali. Ao mesmo tempo indefesa e que dependia de outros para tomar decisões por ela. Senti meu coração partir, senti vontade de abraçá-la.
A mulher da “minha mesa”, em vez de dar o real que faltava pro lanche, comprou dois; um para a mãe e um pra ele que, antes de começar a comer, ajudou a mãe a começar o dela e, claro, agradeceu com genuinidade à que comprou os lanches.
No final, nós três fizemos, em silêncio, uma vaquinha pro almoço deles.
A fragilidade da idade daquela mulher, a feição de conformada, o moço que cuidava dela – o filho – a fome dos dois, tudo isso, e mais o que eu desconhecia, leva qualquer ser a pensar na vida, como eu vim embora pensando na minha vida, na vida de tantas pessoas, na vida de tantas outras que eu não conhecia.


Uns querem Ferrari. Outros, matar a fome.
Quem somos todos nós?

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