O Botijão e a Borboleta

Ontem à noite, não sei dizer a hora exata, mas era bem tarde, eu senti fome. Decidi, então, que faria um chá. Levantei-me daqui, do computador, e fui à cozinha. Vi uns biscoitos doces em cima da mesa e pensei: “Vão ficar ótimos com o chá.”

Pus água em um caneco, coloquei o caneco sobre o fogão, rodei o botão e apertei o do acendedor. Nada aconteceu. Repeti o processo e, uma vez mais, nada. Fiquei olhando para o fogão como se olha para uma criança emburrada, tentando desvendar o que tava acontecendo.

Olhei para o botijão para ver se a torneirinha estava fechada. Isso não ajudou muito porque não me lembrava se a posição em que ela se encontrava significava aberta ou fechada. Mudei a posição dela, voltei ao fogão, e uma vez mais, tentei acendê-lo. Niente outra vez!

Qual era o mistério?

Minha mãe veio aqui em casa esta semana e andou limpando a cozinha, inclusive o fogão. Será que ela mexeu, sem querer, ou querendo, em alguma coisa, fazendo com que esse trem ficasse assim tão indiferente, sem reação? Eu tenho este fogão já faz mais de vinte anos! Não tem nada nele que eu não conheça! Ou será que tem? – pensei enquanto franzia a testa para a dupla de múmias no canto, ao lado da pia (Perceba que já usei o termo “múmias” para representar a minha indignação no momento). Restou-me, depois de um pouco de raciocínio e depois de ter verificado se existia algum outro botão desconhecido, verificar se tinha gás, pelo menos, no botijão. Aproximei-me dele, já com as pernas bem abertas, bem em cima dele e o agarrei com as duas mãos por aqueles vãos ao redor do topo, com fé e vontade, como se agarra alguém pelo colarinho e o sacode por causar algum desaforo. Minha força antecipada foi tanta, que ele veio à altura do umbigo. Senti-me um Ciborgue. (Lembra-se de O Homem de Seis Milhões de Dólares? rs) Eu não estava com essa bola toda. O ordinário estava vazio!

Você acha que a história tá acabando? Que vou arrumar uma frase daquelas que encerra o papo? Não! A parte mais dramática está por vir, ainda.

– E tem mais drama nisso? – você pode estar se perguntando.

– Tem! Sim!

– Ah! Então, não tinha outro botijão cheio. É isto?

– Não! Claro que tinha!

– Então, não sei por que haver mais drama.

– Calma. Vou contar.

Como se estivesse indo a uma batalha possivelmente perigosa, agachei-me até o botijão esvaziado para desatarraxar o “registro”, como se diz por aqui (o controlador), aquela peça que conecta a mangueira ao botijão, que tem outra peça que se parece com dois braços abertos, cujo nome descobri hoje: borboleta. Os motores de carro têm uma peça com este nome também, que está lá no meio do sistema de injeção. Em inglês, “borboleta” é “butterfly”, e embora não tenha certeza, acredito não ser adequada para nenhum dos casos. Depois vou pesquisar.

A borboleta estava emperrada. Não ia nem para lá, nem para cá. Comecei a fazer simulações com a mão (sou canhoto), lembrando-me, ou tentando, de como se abre e fecha uma torneira. Anti-horário abre. No sentido horário fecha. Mas, por um momento, perdi a certeza, pois me pareceu que a da cozinha se comportava de forma diferente da do banheiro. São modelos diferentes. Levantei-me e fui à pia fazer o experimento. Em seguida, fui à do banheiro para tirar a dúvida. Foi um engano. Se comportam igualmente.

Voltei ao ser oco e inerte.

Deduzindo que o problema era força, e não tendo sequer um martelo, comecei a bater com o cabo de uma faca na “assim-denominada” borboleta, mentalizando “anti-horário”, “anti-horário”…

Ufa! A borboleta começou a mexer as asas, e pronto! Consegui desparafusá-la. A sensação era de, sem brincadeira alguma, vitória. Genuína e vaidosa vitória ao ver que a união entre botijão e fogão, via mangueira e borboleta, acabava de ser interrompida pelo senhorio da casa, que, de pronto, enxergou-se prestando favores à vizinhança com seus conhecimentos em reparos. rs

Afastei o botijão vazio e arrastei o cheio para perto.

– O lacre! Tem o lacre! – um pequeno obstáculo a ser derrubado.

Lacre arrancado, posicionei a “barbuleta” no novo botijão e comecei a atarraxá-la. No meio do caminho, ouvi aquele barulho, que nesse caso era de aparente violência, de esvaziamento de bexiga (Sim! Daquelas de aniversários!), e antecipando possibilidades gravíssimas, uma explosão, por exemplo, a cozinha toda cheirando a gás, o que contribuiu para o meu desespero de fácil acesso, tentei desatarraxá-la. Mas não conseguia. Já estava “duro” o negócio. rs

– E agora? – me perguntei, visualizando tudo ali acidental e tragicamente voando pelos ares, e eu de carona, feito Ícaro. A sensação de urgência, de “tome uma decisão já” era imensa! Rapidamente, fui em busca da faca que tinha me ajudado antes, ou melhor, do cabo dela, e comecei a golpear a “borboleta” freneticamente. Consegui, após diversas pancadas, tirar a peça. Aliviado. Nada explodiu. A única coisa errada era o cheiro de gás pela casa. Seria anormal se não tivesse pensado nos casos de suicídio com gás, naqueles que a gente lê na Internet, o que me fez pensar: não só explosões matam; gás também! Às pressas, abri as janelas, peguei uma toalha de banho e comecei a abanar a cozinha, tentando não respirar, o que foi MUITO difícil. Se álguem me visse nessa hora, pensaria que estava fazendo algo espiritual, como afastando mau-olhado, quebranto, algo do tipo.

Levemente tranquilizado, olho para o trio inerte. O botijão vazio, o cheio e o fogão, como se estivessem com aquele sorrisinho de escárnio. Senti-me ameaçado e, claro, frustrado.

Abandonei a cozinha e vim para o quarto. A batalha, como disse antes, era, de fato, perigosa e incerta. Fui derrotado. E sem chá!

Eu não poderia ir ao Youtube procurar um tutorial de como trocar botijões, poderia? Não seria um absurdo? O cúmulo da incapacidade e da limitação, não?

Sentei-me na cama, pensando nisso tudo, e tentei me conformar com o resultado. Amanhã, eu ligo pro cara do gás e tudo se resolve – pensei.

Mas com o orgulho alfinetado, a indignação à flor da pele, lembrei-me uma amiga que instala até ventiladores em paredes, e sem curso algum! Ela sobe em telhados, pinta portas, instala suportes e o que quer que seja no banheiro, quarto, cozinha, onde quiser. Mesmo que ela nunca tenha feito algo, ela se aventura. Por que não posso?

Nessa hora, lembrei-me de uma vez em que a corrente da minha bicicleta escapou enquanto eu descia a rua principal. Eu era moleque ainda. Incomodada pelas minhas tentativas frustradas de colocá-la de volta, uma senhora que passava se aproximou.

– Com licença. Posso ajudar?

Fiz sim com a cabeça e afastei-me, olhando com reprovação para as minhas mãos sujas de graxa.

– Pronto! – ela disse. Agradeci e continuei minha viagem.

Todo mundo deve saber trocar botijões – pensei – só eu que não?

Aquilo não podia estar acontecendo! Levantei-me e fui, outra vez, à cozinha. Acendi a luz, olhei novamente para o trio, e o intuito era de terminar o que tinha começado. Vamos lá. Comecei tudo de novo.

Tudo aconteceu igualzinho ao da primeira vez. Sem pôr nem tirar.

Mentira! Dessa vez, eu não abanei a cozinha. Eu a abandonei. Vim deitar-me, tentando esquecer-me daquilo tudo. Indignado e resmungando. Cheguei a sonhar com coisas esquisitas e sem nexo, e no meio delas, havia, naturalmente, um botijão e uma borboleta. rs

Hoje de manhã, a primeira coisa que fiz foi ligar pro cara do gás, e ele veio. Meia hora depois, mas veio. Contei a ele que tinha tentado sem sucesso. Rindo, fez tudo de maneira simples e rápida. Tentei observá-lo para ver onde eu tinha falhado. Com a ponta de uma faquinha, ele retirou uma arruela de borracha de algum lugar e disse que o problema era aquele. Não entendi, mas fingi que sim.

Ele que me falou que o nome era “borboleta”.

A borboleta e o botijão não me deixaram tomar chá ontem à noite. Acredita? rs

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3 Comments

  1. Tem que rir, foi engraçado. E completamente atípico, né? Ué, todo mundo sabe trocar um botijão de gás! Ou deveria…rsrs Eu sei, fiz por anos, até que chegou um dia que falei que não ia mais fazer isso. Nunca gostei, sempre tive medo. Mas fiz, incontáveis vezes. Enfim, aprendeu ou não? Deixa a borboleta pra lá e mãos à obra. Aprendendo que o gás sempre acaba na hora em que mais precisamos dele. Fica de olho na chama. Antes, anota o dia em que trocou, numa folhinha que fique presa atrás da porta da cozinha, ok? Faça as contas de quanto tempo dura o gás na sua casa. Tem que ter uma estimativa. Daí, perto desse tempo dele acabar, a chama vai ficando vermelhinha nas beiradas, tá? Ou o fundo das panelas começa a ficar “chamuscado”. Olho vivo.
    Beijo e boa semana. Édi.

    Curtido por 1 pessoa

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