What’s your name, falecido?

– Preciso te contar uma das boas. – uma amiga me falou recentemente.

– Conte-me. Conte-me tudo! – eu disse rindo.

Na verdade, eu pensei que ela ia me contar uma piada. Piadas são, normalmente, fictícias. Não?

– Eu me levantei um pouco tarde hoje, por volta das treze horas – percebi que era real, a história – e quando olhei no relógio vi que tinha dormido demais. Este horário de verão engana a gente no começo. – falou seriamente.

– Ah. Eu detesto o horário de verão. Desobedeço sempre que posso. – falei.

– Lembrei-me que tinha de ir a um velório. Tinha de ser àquela hora mesmo. Nem daria tempo de almoçar. Então, eu me levantei rapidamente, fui ao banheiro, voltei ao quarto e me arrumei.

– Poxa! Almoçar seria muito egoísmo, né? – provoquei uma descontração de leve.

– Pois é! Já ia saindo quando me lembrei dos meus óculos escuros. Voltei, na correria, e os peguei. Entrei no carro e fui.

Ela continuou contando a história para mim, praticamente ofegante, como se estivesse revivendo a situação com genuína intensidade.

A parte mais interessante da narrativa foi o momento em que ela chegou ao local do velório. Ao estacionar o carro, sentiu que algo estava errado. Nenhum dos carros ali perto do dela era familiar. Mesmo com esta sensação, desceu do veículo, se ajeitou arrumando os óculos, passou as mãos levemente nos cabelos, deu a volta e entrou no local.

Mais uma vez, a sensação de que havia algo errado lhe invadiu. As pessoas, que eram poucas, não eram pessoas conhecidas. Por que tão poucas pessoas? Pelo menos as que tinha visto ao entrar, lentamente enquanto analisava a situação, não pareciam conhecidas. A esta altura, ela já estava levemente preocupada.

Mas mesmo assim, prosseguiu. Cumprimentou as pessoas com um movimento de cabeça e um leve “boa tarde” labial e aproximou-se do defunto. Assustou-se ao olhar para baixo. Deu uma olhada de leve ao redor, e ainda ninguém conhecido. Olhou novamente para o falecido e, de fato, não sabia de quem se tratava. Puxou uma cadeira, sentindo-se totalmente desorientada. Sentou-se, ficou estacionada atrás da proteção dos óculos escuros, que, ainda bem, tinham vindo também.

De repente, alguém se aproxima, toca-lhe o ombro e diz:

– Oi, Don’Ana. Obrigado por ter vindo. Muito obrigado mesmo. – com ar de desolado.

Sua desinformação da situação redobrou-se nesse momento.

– Imagine, filho. – disse ela tentando estabelecer uma relação entre o moço e o falecido, porém com ar de não-poderia-não-ter-vindo. Apesar de mudado, conseguiu se lembrar de que tinha sido seu aluno, enquanto diretora, anos atrás.

– Vamos sentir muita falta dele. Foi um grande pai para nós. – comentário que deu um pouco de luz às suas dúvidas – É uma honra tê-la aqui, professora. – terminou e começou a rumar-se para outro lado.

Antes que ele se afastasse de vez, ela lhe interrompe cuidadosa e gentilmente.

– Você sabe se o corpo do senhor João já foi enterrado? – referindo-se ao velório a que, na verdade, deveria ter comparecido.

– Não. Ainda não. Está sendo velado em outro lugar.

– Onde? – tentou não soar ansiosa.

Ao ter a resposta, aliviada por ter compreendido o que tinha acabado de acontecer, ficou ali um pouco mais. Não podia sair correndo dali a fim de ter tempo para, ainda, estar no outro. Com bastante cautela e naturalidade intencionais, saiu do local.

E dirigiu-se ao outro velório.

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