Esta é uma das minhas preferidas histórias

Ainda no começo da carreira de professor de inglês, comecei a dar aulas numa escola particular de ensino médio. Era uma época em que a gente trabalhava para três ou quatro escolas, cada dia em uma.

Antes de começar nessa, algumas pessoas me desaconselharam. Disseram que a escola era muito permissiva, que fazia questão apenas das mensalidades pagas, e que o professor tinha de ter muito traquejo para trabalhar lá. Que não parecia escola particular.

Eu, que tinha acabado de vir de São Paulo, que tinha, pelos últimos nove anos, dado aulas em escolas de idiomas a executivos, os famosos businessmen, pessoas que nunca me levaram a refletir sobre disciplina, pensando em comportamento, fiquei meio receoso. Mas mesmo assim, apesar de todos os comentários “ruins”, eu fui.

– Se eu não gostar, ou não dar conta do recado, eu saio. Peço demissão, ué! – pensei.

A escola não tinha me oferecido todas as aulas, manhã, tarde e noite. Ofereceu-me apenas as quatro únicas do período noturno, que eram o terceiro ano e o cursinho pré-vestibular. Era uma graninha a mais, ademais de tudo.

Lembro-me como se fosse ontem.

Ao entrar no terceiro ano, quase todos os alunos estavam em pé, indo aqui e ali, uns rindo, outros conversando, poucos quietos, e de lá do fundo ouvi a voz de um menino dizendo que odiava inglês. Ele não disse baixinho, esperando que eu não o ouvisse. Ele o disse assim: claramente, para que todos, ali, ouvissem, inclusive eu. Isso, para mim, me soou um “You’re not welcome here, teacher!”, e, de repente, veio a parecer-me que TODAS as probabilidades estariam contra mim, contra tudo aquilo que eu gostaria de ensinar àquela turma.

A minha inexperiência cochichou ao meu ouvido:

– Dê estas duas aulas e, ao final, diga ao diretor que você não quer mais.

O diretor era o dono do colégio. Na entrevista, ele me recebeu gentilmente e de braços abertos. Apresentou-me a todos na secretaria, foi paciente ao me explicar diversas coisas e, inclusive, quanto eu ganharia. Recebeu-me como se eu fosse uma celebridade, desculpem-me pela analogia, mas foi assim mesmo! Como lhe soaria se desistisse já no primeiro dia? A boa vontade dele e o acolhimento carinhoso, em minha cabeça, travaram, ali, rapidamente, uma batalha contra a minha incipiência.

Fui à mesa, pus meu material sobre ela, apaguei o quadro, voltei à porta e a fechei.

A sala ela era muito larga e um tanto comprida. Posicionei-me no meio dela, à frente, e falei “boa noite”. A voz saiu-me firme, natural e destemida, apesar de, no fundo, não se sentir tão destemida assim.

A sala foi-se calando aos poucos. Segundos depois, estavam todos quietos, olhando para mim.

A voz do “odeio inglês” retumbava em meus ouvidos. E eu precisava, antes que muito tempo se passasse e me esquecesse, saber quem era o dono dela.

Escrevi meu nome no quadro e comecei, a fim de ganhar tempo e poder entender mais a turma, por volta de uns trinta e cinco alunos, a perguntar o nome de cada um deles e saber o que cada um pretendia, se pretendesse, estudar na faculdade. Sim. Muitos queriam ter graduação. Uns se exibiram diante dos colegas dizendo que não precisavam porque suas famílias tinham condições e (ou) negócio próprio.

Chegou, finalmente, a vez e a voz do rapaz que odiava inglês. Falou seu nome e disse que não sabia o que queria estudar após o ensino médio. Falou rapidamente e com muito pouco contato visual. Arredio, distante, prepotente, indiferente. Aparentemente, o galã da sala. O rapaz bonito a quem as meninas pareciam querer mimar gratuitamente, contribuição óbvia para seu ego viciado em ser flertado.

Todos falaram.

Eu falei também. Inclusive da importância de se saber um idioma estrangeiro nos dias atuais. Acrescentei que eles não aprenderiam a falar fluentemente comigo nas duas aulas semanais, mas que, se estivessem dispostos, eu faria muito para que eles soubessem mais do que sabiam. Que queria deixar minha contribuição, de alguma forma, a eles.

Então, eu tive de começar a aula.

Comecei.

Comecei com uma abordagem simples. Aquela que tanto se utiliza, especialmente em compreensão de textos; a de fazer o aluno dar-se conta de que não é verdade o que costuma dizer: “Não sei nada de inglês, professor.”

Pus frases comuns no quadro, do tipo “I love you”, “let me see”, “do you speak English?”, etc., e fui perguntando ao alunos, aleatoriamente, o que significavam. Todos acertavam! É claro que sim! E eu emitia um leve elogio a cada resposta.

Quando cheguei ao “odeio inglês” (esta abordagem foi proposital e inspirada, ao improviso, por causa dele), e apesar de demonstrar resistência, ele deu a tradução do que tinha lhe perguntado corretamente, meu elogio foi um transformador “Você arrasou!”. Transformador não só a ele, mas à turma toda, que certamente teria outros “odeio inglês” escondidos e, especialmente, a mim. A ele e à turma porque eu acabara (deixem-me usar este mais-que-perfeito, please!) de ganhar o respeito da sala, e fiz questão (deixem-me, também, ser um tanto pavão aqui) de mostrar que eu tinha um tranquilo domínio daquilo que ensinava. E a mim porque acabara de inserir em minha tímida lista de aprendizagens uma nova aprendizagem.

Semanas mais tarde, aquele moço sentava-se à frente. Participava das aulas. Nem todas as vezes estava feliz e bem humorado, mas estava ali, perto de mim, seu professor. E em diversas vezes abriu, ansiosamente, o portão da escola para eu entrar com o carro. Virou, junto com a turma, meu amigo.

Esta é uma das minhas preferidas histórias.

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11 Comments

  1. Dar aulas é um dom. Que bom que não ouviu seus colegas e nem a seu medo momentâneo. Com certeza, você fez a diferença pra melhor, coisa que nem todos os professores conseguem. Muito boa história.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Dar aulas é um dom. Que bom que não ouviu seus colegas e nem a seu medo momentâneo. Com certeza, você fez a diferença pra melhor, coisa que nem todos os professores conseguem. Muito boa história. 😉

    Curtido por 1 pessoa

  3. Parabéns, professor Édi!
    Antes de mais nada , o professor tem que ter sentimento, feelling (como se diz em inglês), para observar com atenção seus alunos e perceber a forma de se achegar, de trazer pra junto, de unir, participar e fazer da aula algo prazeroso. Foi o que você conseguiu, legal!
    grande abraço carioca

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  4. Édi vc tem razão dessa história ser sua preferida, a partir de hoje tornou minha também, pois não é um causo e sim um acontecimento e por sinal marcante. Nós professores carregamos conosco por anos a fio lindas e também horrendas cenas, mas nada impede que a gente continue remando o barco, pois somos o mais vitoriosos leme de toda e qualquer profissão! Abraço querido.

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