Por quê?

Sempre que eu ia lá, a gente se via – às vezes muito en passant; outras nos falávamos.
Só o pouco do que via contribuiu para que acabasse, com o tempo, gostando do seu jeito espontâneo, bem resolvido, gratuitamente festivo quando me via – quando via muita gente – estivesse onde e com quem estivesse. Escrevia em sua página, e em suas mensagens, do jeito que falava; “não” era “naum”, “você que sabe” era “cê ki sabi”, tudo era do jeito que soava, e isso, de alguma forma, por incrível que pareça, denunciava sensibilidade, que, para mim, anda de mãos dadas com inteligência.
Notava que conseguia facilmente ser líder de sua turma, oferecia sua casa para reuniões de amigos, ou, mais sempre do que normalmente, todos pegavam uma cadeira cada, cruzavam a rua e se sentavam na calçada oposta, lugar em que riam, caçoavam entre si, inventavam apelidos, contavam piadas, e assim a noite se passava, até que cada um fosse embora bem tarde. Era atípico não vê-los lá reunidos; e quando não estavam, parecia-me muito extraordinário.
Em outras vezes, quando em outros lugares, ouvia meu nome gritado, de lá do meio do povo, clara efusão quando eu passava sem parar, a qual me alegrava bastante. Era bom entender que, de alguma forma, e a seu modo barulhento, apreciava minha presença, mesmo que transeunte.
Eu conseguia notar que era benquisto, popular, bem-vindo aonde quer que fosse, sorridente à toa, invejavelmente de bem com a vida, com todos, jovem e feliz.
Um dia, amanheci com a triste notícia de que se fora. Visitei sua página e chorei com as mensagens deixadas, de seus amigos, que tanto o amavam. Peguei o celular para reler a última conversa que tivemos, e emocionei-me mais um pouco. Tive pena de apagar. Volta e meia, ia lá ler e reler.
Ainda vou à cidade dele, e antes de vir embora, passo em sua rua, olho para a calçada oposta e vazia. Ninguém está mais lá.
A TV agora tem as madrugadas para descansar.
É triste como a ida de cada um se dá – por ordem cronológica de chegada  – como a de Dercy Gonçalves, por exemplo – ou por caprichos aparentemente irrefletidos do destino, ou da morte; quem sabe?
Franca e sinceramente? Somos iguais a insetos na mira de um para-brisa, que quando colididos, não é a força da batida do vidro que mais impressiona, e sim a absurda fragilidade que nos é tão peculiar, inerente, e que nos oportuniza, a seu bel-prazer, a falsa convicção de que podemos controlar a estada e a hora de nossa partida.

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5 Comments

  1. É triste conviver (?) com a morte, mas é isso aí…Não sabemos nosso prazo de validade. Minha irmã perdeu uma amiga, assim, num “puf!”, sexta-feira. Amanheceu, passou mal e se foi…Para ela, ótimo. Sem sofrimento. Para os que ficam, a estupefação, o “cair da ficha’ muito lentamente, como se fosse um pesadelo. E minha mãe, 90 anos, presa a uma cama, só respirando…Vai-se entender a vida!
    Ficam as boas lembranças e a saudade, que é eterna. Ainda bem. Porque só morre verdadeiramente quem é esquecido.
    Boa semana, amigo.

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