Mal-entendido

Uma madrugada, lá no outro face (que será desativado em breve), recebi uma mensagem no Messenger dizendo “Olá. Eu era sua fã. Tinha gostado de você desde o primeiro momento em que te conheci. Mas não sou mais.”

E vi que a pessoa continuaria falando – sabem aqueles três pontinhos que mostram que estão escrevendo?

Nesse momento, senti um frio na barriga.

– O que eu fiz? – pensei.

Vi que nunca antes nos falamos. Era a primeira conversa no Messenger.

– Devo ter escrito algum post de que ela não gostou. Só pode ser isso. – deduzi.

E os três pontinho lá, como se estivesse escrevendo uma extensa carta.

Quando chegou a próxima mensagem dela, vi que fazia referência a um post meu sim, no qual eu dizia as seguintes palavras: “Podem falar o que quiserem dos gays. Sempre vão falar e atacar de alguma forma. Mas vou dizer uma coisa: as pessoas mais inteligentes que EU conheci e que conheço não são heterossexuais.”

De alguma maneira, ela entendeu que eu estava falando mal dos gays, pois me declarou que o único filho que tinha, e que tanto amava, e por quem daria a vida, era gay. Penso que ela não entendeu o significado de “heterossexual”.

Então, esperei que ela falasse tudo o que queria, sem interromper. Ela não me ofendeu em momento algum. Apenas me disse que, por eu ser um professor, um cara bonito (isso foi por conta dela :D), instruído e culto (nem tanto – acho que ela exagerou, rs), eu não podia ser preconceituoso, principalmente “em público” (ela quis dizer no Facebook).

Depois que ela se silenciou um pouco, comecei a escrever minha defesa, mostrando a ela que havia um misunderstanding ali. Parafraseei o post a ela, de forma mais simples.

– Desculpe-me pelo mal-entendido. – ela terminou, mais tarde.

Eu tive a sorte de aprender idiomas. Ou tive a boa vontade e empenho? Não sei. Mas todas as vezes em que abro a boca, ou escrevo algo, procuro soar claro. Já cheguei a pensar que esse “medo” de ser mal entendido pode ser uma espécie de transtorno. TOC? Me incomoda demais quando me dizem: “O quê?”, “Não entendi.” Dá a impressão de que sou inarticulado. E por causa dessa cautela, normalmente, as pessoas elogiam minha pronúncia em inglês. Por exemplo, “ass” e “as”. A primeira se diz com som de “s”, mas a segunda se diz com som de “z”. A primeira, na gíria, quer dizer “bunda”, e até “cu”, e a segunda pode ser “como”, “enquanto”, “conforme” e outras possibilidades. Mesmo que o contexto possa estar a favor da compreensão, jamais gostaria de dizer “Cu eu estava dizendo…” em vez de “Conforme eu estava dizendo”… Entendem? 😀

Além disso, embora adore palavras upper-level, gosto mesmo é de falar e de escrever palavras simples, que não causem dúvidas em quem me ouve ou lê o que escrevo. Para que falar “soer” no lugar de “costumar” para quem eu sei que não vai me entender, por exemplo? Para que falar “passamento” no lugar de “falecimento”, como certa vez um amigo disse a um grupo de pessoas, que não entenderiam este sentido da palavra, na sorveteria? Acho pedantismo e até mesmo viadagem! Nem mesmo para quem acredito que entenda eu falaria – a não ser em brincadeiras.

Agora, estamos em um país em que as pessoas têm dificuldade de dissociar “homossexual” de “heterossexual” – essa pessoa, a da mensagem, me fez concluir. E por isso, quanto mais simples for, tenho a sensação de mais elaborado parecer e soar – mas mesmo assim, cuidado deve ser tomado.

Soar. Não “soer”. 😀

Obrigado por ler o que escrevo! Beijos!

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7 Comments

  1. Ainda bem que foi um mal-entendido, mas anda difícil mesmo se fazer entender nos dias de hoje, e não só pela forma que escrevemos, também pela falta de aprendizado em interpretar que o povo brasileiro anda carregando em malas por aí. Beijos meu querido. Sou tua fã sempre.

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  2. Dominando ou não o conceito de heterossexual, acabo por admirar a postura/educação da senhora. Em Portugal, perante uma situação destas, o comum é bloquearem-te. Tal atitude é levada a cabo até por colegas de trabalho.
    Esta senhora expressou o seu descontentamento e tu pudeste defender a tua posição. A frase está muito clara mas por vezes temos que as reajustar. Custa assim tanto contactar quem escreve? O bloqueio é bem mais fácil, não exigindo confronto nem a “perda de tempo” ao escrever.
    Admirei também a tua postura ao deixar que a senhora tudo escrevesse até ao fim e só depois interviesses. Admito que este é um comportamento que ainda trabalho em mim, com pessoas mal educadas e quando me provocam. Como é difícil não explodir de imediato!
    Gostei do teu post no seu todo. Feliz 2016 🙂

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  3. Ahhh eu sofro do mesmo mal. Vivo sendo mal interpretada. Me prendo, custo mesmo a escrever, muitas vezes, por achar que vão interpretar mal o que quis dizer. Sempre acontece. Mas vou admitir, não posso me empolgar muito porque acaba saindo o que está na minha cabeça e sem filtros. rsrs então tomo cuidado redobrado. Mas nem assim adianta. Acho que é algo com o qual vamos conviver sempre, não tem jeito. Uma vez li e procuro adotar: “Sou responsável pelo que eu escrevo, não pelo que você entende”. E vamos que vamos.
    Bjooo lindo

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