Assuntos de aulas de inglês

Costumava sentar-me na mesa antes de começar a aula no cursinho. Eu disse na mesa sim. Não à mesa. Era em cima dela que eu me sentava. Era uma forma rápida de ganhar a atenção e silêncio da turma. Raramente falhava. Gostava de cruzar as pernas como se fosse fazer ioga. Fazia cara de quem estava pensando, à procura do que falar, de que assunto trazer à tona, mas, na verdade, eu já sabia.

– Bom dia. – dizia, olhando para a turma toda, rosto por rosto.

Às vezes, fazia uma pergunta a um ou outro aluno. Dava ignição à conversa através de falas propositais, que esbarravam no que eu queria desenrolar na aula.

Um dia, já sentado na mesa, apontei para um aluno e pedi a ele que me desse uma sentença usando a palavra cujo. A frase dele foi um fiasco. Ele não sabia usar e provavelmente não sabia o significado da palavra. Muito menos saberia responder, se eu tivesse perguntado, que se tratava de um pronome relativo. Mas nas aulas, eu procurava não falar muito esses nomes, conjunção, pronome relativo, etc. Eu tinha a sensação de que dificultava ainda mais se falasse. Então, eu usava a palavra palavra.

Escrevi o exemplo que esse aluno me deu no quadro. Pedi a todos, um por um, que me dessem um exemplo com cujo, cuja, cujos ou cujas. Entre os aproximados quarenta exemplos, porque havia aproximadamente quarenta alunos na turma, menos de dez estavam corretos. Preocupante, não?

Entre os alunos, havia aqueles que queriam ser médicos, dentistas, engenheiros, advogados e outras coisas.

– O homem cujo conheço mora nesta rua… – um dos exemplos era este.

Então, começava, depois de tanta preocupação e, confesso, desânimo, a explicação acerca do uso dessas palavras. Que o significado aproximado delas poderia ser “a quem pertence”, “que tem”.

– Ele é o homem cuja esposa cozinha muito bem.  (Ele é o homem que tem uma esposa que cozinha muito bem.)

– João, cujos filhos estão todos casados, vive uma boa vida de aposentado. (João, a quem pertence os filhos casados, vive uma boa vida de aposentado.)

Procurava soar simples, sem complicações, a fim de animar mais a turma a entrar no clima da compreensão e dedicação. Nem sempre dava certo, mas eu tentava enquanto pudesse.

Depois disto, eu dizia:

– Para que se deem conta de que a língua inglesa é bastante simples, essas quatro palavras se resumem a uma só em inglês, que é whose. A pronúncia é /ruuz/, com o /u/ levemente prolongado. – e até escrevia no quadro.

She is the girl whose brother speaks five languages. (Ela é a garota cujo irmão fala cinco línguas.)  – Ela é a garota que tem um irmão que fala cinco línguas.

Não é fácil ensinar uma língua estrangeira para pessoas que mal sabem a própria. Será sempre uma luta. Isto foi apenas um exemplo.

À bientôt. 😀

 

 

 

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7 Comments

  1. A última frase do seu texto é uma verdade válida não apenas de uma língua estrangeira para o português.
    Eu estudo o neerlandês, e na sala há pessoas de todos os continentes. E, já notei isso, mas só agora ao ler o seu texto foi que, talvez, eu tenha encontrado a razão de raramente chamarem os nomes “aos bois”.
    É ensinado e não se fala no nome preposição, conjunção, etc.
    E para diferenciar o perfeito do imperfeito (rsrsrs) você tem de sentir, pq é como entendi no seu texto….se um aluno faz essa pergunta é pq não sabe na sua própria língua.
    Abraço .

    Curtido por 1 pessoa

  2. O português é uma língua complicada. E com essas alterações agora, ficou pior, na minha opinião. O problema é que desistem do português e acreditam piamente, que passando direto pro inglês será mais fácil. Mas não é. É o que você disse, são as bases. Mas você já sabe disso muito bem, tanto que usa a palavra “palavra”,pois se usar as designações, nunca sairá do verbo To be.

    Curtido por 1 pessoa

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