Viagens?

– Boa noite. – disse ao atendente, que estava ao lado de uma moça atrás do balcão.

– Édi! Olá. Como vai? – reagiu com certa efusão, causando-me a sensação de estar bem-vindo.

– Bem. E você?

– Bem também.

– Que pastéis vocês têm aí?

Ele me mostrou o cardápio e fez um asterisco, com seu lápis gasto para lá da metade, naqueles que já tinham se esgotado. Para mim, não importava. Nenhum dos que ele apontou me interessava. Eu queria de carne de vaca mesmo.

Falando nisto, eu acho engraçado quando me perguntam se quero de carne ou de frango. Apenas engraçado, e eu rio, na hora. E penso: “Como se frango não fosse carne, né?”

– Quantos você quer?

– Hmmmm. – o cheiro dos que estavam sendo saboreados nas três únicas mesas ocupadas me fez pensar por uns segundos. – Só um, acho. – tive vontade de pedir dois porque tinha muita fome. Mas acabei pedindo um só. Ele passou o pedido a uma senhora, a óbvia fazedora dos pastéis, com seu gorro e avental, e ela começou, então, a preparar o meu. Deu umas balançadinhas de cabeça para lá e para cá durante o refrão de Price Tag que tocava no rádio, conforme manuseava sua enorme escumadeira. Foi até engraçado vê-la animada com a música moderna.

– Você vai comer aqui ou vai levar? – perguntou o atendente.

– Aqui. – e fui a uma mesa que tinha acabado de ficar livre. O casal que estava a ela antes deixou restos de pastéis, guardanapos usados. Sentei-me, e o rapaz veio limpá-la.

– Vai tomar alguma coisa?

– Vocês têm sucos?

– Não. Só refrigerantes.

Então, pedi um refrigerante. Enquanto o pastel era preparado, comecei a observar o ambiente. Ao meu lado esquerdo havia uma mesa com um casal de jovens. Pude notar que eles já tinham comido, mas esperavam mais uma rodada. E enquanto esperavam, olhavam, cada um, para o seu celular, que se responsabilizava pelo silêncio entre os dois; às vezes, se entreolhavam, apenas isso.

À direita, lá à frente, bem perto do balcão, havia três rapazes. Comiam em silêncio.

Olhei para cima – em situações assim, a gente procura coisas para olhar, evita olhar para as pessoas a fim de não parecer rude – e vi que a árvore tinha sido aparada delicada e artisticamente. A visão que ela me permitia fez-me lembrar de uma redoma. Estava redondamente formatada.

O pastel chegou. E Price Tag ainda ocupava o campo auditivo de todos nós.

Comi, peguei o celular e a chave do carro em cima da mesa. Vim embora. Com a fome matada.

Eu faço essas coisas com certa regularidade. Pego o carro e vou a alguma cidade, à noite. Gosto muito de ir a lugares que não conheço, de ver e de conhecer pessoas que não conheço. Mas, conforme você pode notar acima, lá no começo, não foi a primeira vez que fui à pastelaria, nem àquela cidadezinha.

Lembro-me da primeira vez em que lá estive. Cheguei, estacionei o carro perto da praça da igreja, sentei-me em um banco, e em pouco tempo, havia pessoas se aproximando para conversar.

No final, acabo levando meus amigos também.

A ida, a estada e a vinda são terapêuticas, costumo dizer. Afinal, como muita gente deve fazer, eu também uso o carro como um divã, lugar em que eu bato papo comigo mesmo, me questiono, me respondo, me mando à merda, me calo.

De vez em quando, faça isto também, você que tá lendo este texto. Saia para o incerto, sem esperar grandes coisas e, quem sabe, volte para casa com novas amizades, novos nomes em sua lista de conhecidos; e por que não com a possibilidade de uma paixão? Difícil? Claro que não. Eu já vivi isto. 😀

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