Sem título

Acabo de chegar a minha casa. Fui ao bar comprar um doce. Sabe aquelas vontades que vêm de repente, em momentos tardes, quando, na verdade, a gente deveria estar quieto em casa?

Ao voltar, embora seja segunda-feira, vi que as ruas estavam ermas. Todas as portas, exceto as do bar a que fui, estavam fechadas. Imediatamente lembrei-me da época de criança e de adolescência. Sem a menor dúvida, há vinte anos – eu não era criança nem adolescente mais –, essas mesmas ruas não estariam tão sozinhas como hoje. Haveria mais portas abertas, mais pessoas sentadas, batendo papo, tomando alguma bebida, ouvindo música, fazendo alguma coisa.

Comecei a pensar na razão dessas mudanças. Não sei se existe algum estudo a respeito do assunto, nunca li sobre, mas fui adiante com meus pensamentos e, of course, conclusões.

Veio-me às lembranças o tempo em que a gente ansiava pelo final de semana para poder ir, depois da missa, à praça, à sorveteria, comprar pipocas ou amendoins torrados do vendedor com seu “carrinho” de duas rodas de bicicleta e dois pés de madeira – que hoje não existem mais – nem o carrinho, nem o vendedor. Corríamos em volta dos canteiros do jardim, brincávamos à beça, e lembrei-me, também, das vezes chatas em que nossa mãe, pai ou avós diziam: “Chega. Tá na hora de irmos para casa.”

Na adolescência, durante o ensino médio que, para mim, era noturno – eu trabalhava o dia todo, ir à escola me soava como algo libertador. Pareciam-me, aquelas quatro horas, das dezenove às vinte e três, quatro horas de estar eu à minha própria mercê, junto dos colegas, e as noites em que tínhamos inglês ou português eram-me (com ênfase nesse pronome, por favor!) ainda mais prazerosas.

Quase todas as noites, a gente, ao sair da escola, ia jogar bilhar, apesar de eu não jogar. Eu não gostava, mas de tanto assistir a tantas partidas, tinha aprendido todas as regras. E para acompanhar as rodadas, tomávamos guaranás, daqueles dos mais baratos.

A gente já era notívago – e junto com a gente, havia outras turmas que ajudavam a dar vida, movimentação às noites de cidade pequena. Éramos sempre seis ou sete; às vezes mais, às vezes menos. Todos, menos eu, podiam ficar até tarde fora de casa porque não trabalhavam. Mas mesmo assim, eu ficava. Confesso: sentia inveja deles que não precisavam levantar cedo. Tinham boa vida, pais que podiam dar-lhes o privilégio do ócio, de só estudar.

Hoje, ao olhar para a solidão das ruas, me perguntei onde estavam as pessoas. Era cedo demais, em comparação com o passado, para não haver gente indo e vindo.

– Estão todas cansadas em suas casas? Estão todas dormindo já? – perguntei-me também.

– Não. Nem todas estão cansadas agora. Nem todas estão dormindo agora. – respondi-me.

A maioria estará, provavelmente, com seus smartphones, laptops, pecês, em silêncio, ensimesmada, isolada em algum canto da casa. Vejam-me aqui, eu, escrevendo este post, por exemplo!

A Internet, para mim, é uma das melhores descobertas. A gente pode ler o que quiser, pode assistir a praticamente qualquer vídeo, com praticamente qualquer conteúdo! Se eu quiser, agora, saber como se diz “latir” (o que me levou a escolher “latir” foi o meu cachorro que acabou de fazer isso) em árabe ou grego, eu descubro em segundos! Como gosto de assistir ao The Voice, inclusive o Kids, e como não consigo me levantar muito cedo nos domingos, assisti ao programa na íntegra ontem aqui na Internet! Ela nos dá acesso a tanta informação! Isto é sensacional!

Sensacional, mas, infelizmente e a meu ver, contribuiu para o distanciamento entre as pessoas. Não estou falando isto tentando me dar isenção. Claro que não. Afinal, como disse acima, estou aqui ao computador escrevendo, ouvindo o som do ventilador, os esporádicos latidos do Gigio, e os eventuais apitos do guarda que passa em sua motocicleta.

– Ah! Eu discordo de você. – você poderia me dizer agora, porque acha que o WhatsApp, o Facebook e outras vias pela Internet fazem com que as pessoas se sintam próximas umas das outras, e poderia, inclusive, me dizer que acaba de falar com seu melhor amigo, ou amiga, que está no Japão, ou em Nova Iorque. Eu não ia lhe contrariar. Claro que não, e concordo.

O que eu quero dizer com ”distanciamento” é distanciamento físico. A Internet nos faz dar menos importância ao aperto de mãos, ao abraço (que tão terapêutico é), ao contato corpo a corpo, ao tête-à-tête. Ela nos dá a ousadia de nos sentirmos The Big Brother, de Orwell. (Sabe o que quero dizer com isto, né?) Dá a nós o manto do anonimato, quando desejado, ou a popularidade, simploriamente virtual – e repito: não quero não estar culpado tampouco.

A Internet, se pensarmos com cuidado, nos rouba o frio da barriga, nos tolhe, sorrateiramente, de viver coisas que merecem ser chamadas de imperdíveis – apesar de tantas outras coisas boas que nos oferece. Ela nos faz aprender a gostar de estarmos sós e distantes. Acredito que também nos dá a falsa sensação de satisfação, a que maquia a tristeza.

A Internet deveria dizer a nós, com voz braba e apontando o indicador pra nossa fuça: “Use-me, mas com moderação.” 😀

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5 Comments

  1. no meu caso, acredito que as coisas estão vazias, as lojas fechadas, devido a insegurança que se implantou pelo país. Na minha cidade mesmo é assim: “tem um estabelecimento aberto depois das 22h, está PEDINDO para ser assaltado..”

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  2. Édi, na minha opinião, esse “recolhimento domiciliar” tem muito mais a ver com o aumento da violência do que com o avanço tecnológico. Pelo menos, no meu caso. Eu acho que a utilização, sem moderação, da tecnologia é consequência e não causa. Ela foi a melhor opção para acabar com o tédio da nossa “prisão domiciliar”.

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  3. É, os tempos mudaram de verdade e eu não sou tão distante da geração atual.
    Eu vejo pela forma como as coisas mudaram em meu bairro onde estávamos acostumados a ouvir crianças, até mesmo eu com meus vizinhos, na rua até 00h. Tínhamos o hábito de reunirmos para fazermos algo que cada vizinho trazia algo, fazia algo ou planejava algo para fazer em uma data comemorativa, no entanto isso acabou.
    Esse susto é presente naqueles que percebem essa diferença e ficam indignados, porque não é uma coisa boa. Ao invés de estar unindo cada vez mais, estamos ficando cada vez mais distante, mudando para um ser que desconhecemos, movidos por opiniões de terceiros e acabando totalmente aquela coisa original e única que somos nós.
    Os tempos mudaram muito rápido e quem apenas aceitou isso, pode sofrer por depois não saber o que está faltando em sua vida.
    Contato humano.

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