A moça e os meus cabelos

Eu estava aqui no quarto, esparramado sobre a cama, distraído, fuçando o Instagram, e de repente ouvi palmas lá fora. Mas nem dei bola porque percebi que não eram, as palmas, na frente de casa. Passados segundos – creio que foram bem poucos – , se aproximaram mais. Resolvi olhar pela janela da sala – vai que eram aqui. Não eram. Voltei pra cá, ao fundo. Mais um pouco de segundos, vieram para a minha calçada. Resmunguei impaciência, levantei-me de onde estava e fui à janela. Uma moça “sacudida” (como diz minha mãe), cabelos pretos e lisos não espontâneos, uma prancheta agarrada por uma das mãos, estava ao portão.
– Oi – falei olhando pela greta da vidraça. Nesse momento, lembrei-me daqueles filmes em que o residente, ao ser chamado à porta, nem sequer a abre e diz “Vai embora!”, ou abre até o limite do “pega-ladrão”, como em alguns apartamentos – pelo menos já vi muitos com o tal e, inclusive, morei em um – e diz “O que você quer?”.
– Oi. Aqui mora algum idoso? – a moça, vendo que eu não tava muito a fim de conversa, falou com estratégica simpatia.
– Tem eu – respondi, forte e repentinamente influenciado pela pergunta a ponto de querer me divertir à custa dela, da pergunta. E ri ao mesmo tempo, enquanto abri a porta e me aproximei.
– Você não é idoso – ela disse, rindo.
– De que se trata? – perguntei, correspondendo ao riso.
– É que – ela começou e, DE REPENTE, diz:
– “Minino”! O que você faz para ter essas ondas nas pontas dos cabelos?
Fiquei tão surpreso pela mudança de conversa, esperando que se tratava da Vigilância Sanitária ou de alguma coisa que se referia a inspeção que, na lata, falei:
– Nada. (Mentira. Eu quase não os penteio!) 
Curioso pelo que ela queria e entusiasmado pela pergunta lisonjeira, comecei a dar corda ao assunto.

– Os meus – continuou ela – me dão um trabalho danado.

Contou-me que os dela, ao natural, não eram daquele jeito, lisos e baixos. Que eram armados, terminando a frase levando as mãos à cabeça, e a prancheta junto, a fim de dar ênfase ao tamanho (exagerado) de suas madeixas.

– Posso ver? – disse ela trazendo a mão livre em rumo dos meu cabelos.

Aproximei mais a cabeça a fim de facilitar o acesso:

– Claro – sentindo um leve rubor por causa de algo em que acredito ter: timidez. Rapidamente, antecipei algum espectador ao longe, sem acesso auditivo à conversa. Se sozinho, certamente conjeturando. Se acompanhado, conjeturas variadas.

– Nossa! – exclamou – Você faz algo, sim!

– Não. Eu apenas os deixo mais à vontade – falei. Eu não estava falando a verdade inteira. Eu estava omitindo. Afinal, o entusiasmo da moça estava, além de massageando meu ego, me divertindo. E muito!

Depois de o assunto parecer esgotar-se – atenção: parecer -, ela me perguntou: 
– Você tá precisando comprar colchão magnético?
– Não. Não tô – respondi rindo.
– Tá bom. Parabéns pelos cabelos – disse, indo à próxima casa.
– Obrigado.
– Tchau.
– Tchau.
E ela se foi.

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5 Comments

  1. Não digo que seus cabelos arrasam? Sonho de 10 entre 10 mulheres.
    E esta moça, a dos cabelos lisos não espontâneos (esta vai ficar na história! rs), é muito envolvente. Preocupou-se tanto com os cabelos alheios que até se esqueceu de convencer vc a comprar um colchão magnético! Tsk..tsk…Bem fraquinha como vendedora.
    Mas protagonizou um post ótimo!
    Beijo, Édi.

    Curtido por 1 pessoa

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