Ida ao mercado

– Venha aqui, Gigio – falei, pegando-o por uma das patas. – Vamos tomar banho.

Quando percebe que a coisa vai ficar molhada, ele fica meio arredio. Então, tenho de pegá-lo. Normalmente, ele se deixa arrastar pelo chão de cimento até o de azulejo, resistindo. Mas comigo não tem essa coisa de não querer se lavar. (Note que ali acima não usei interrogação. Não foi um convite nem uma sugestão. Foi ponto final mesmo.)

Pronto. Banho tomado.

Resolvi ir ao mercado. Precisava comprar algumas coisinhas, inclusive a ração dele. Não havia muita gente lá. Uns aqui, outros ali.

Antes de vir embora, passei pelo balcão das carnes. Havia um filé de frango empanado, atrás da vitrine, que tinha uma excelente aparência. Parei para observar e tentar me decidir se compraria ou não.

– Sim. Vou levar – pensei.

Uma mulher – de aproximadamente vinte e oito, vinte e nove, trinta anos – passou por mim. Não a conhecia, claro que não. Notei que ela me olhou rapidamente nos olhos e, em seguida, na região da cintura.

– Não é bem para a cintura que ela olhou – resmunguei em pensamento. – Ela olhou mais para baixo. – Será que ela me desejou? – quase ri.

Imediatamente comecei a procurar pelo que tinha chamado sua atenção. Minha bermuda, abaixo da cintura, estava molhada. E eu não tinha me dado conta do detalhe nem em casa, nem durante a ida ao mercado.

– Nossa! Ela deve ter pensado que urinei nas calças! – concluí desesperadamente, olhando para trás, tentando ver aonde ela tinha ido. ( – Seu mijão!) Estava logo atrás, também observando a vitrine das carnes. Havia mais pessoas perto dela nesse momento. O homem ao seu lado provavelmente era seu marido – supus.

– Olhem – falei para que todos ali ouvissem, principalmente ela – é isso que acontece quando a gente resolve dar banho no cachorro, e ele não quer! – falei, apontando para a bermuda.

Todos sorriram espontaneamente. A mulher, apenas um riso amarelo.

Grudei o saco de ração, levantei ele até a altura da barriga, estrategicamente, e fui em direção ao caixa.

Na saída, uma moça me perguntou se eu queria ajuda.

– Ela deve estar louca, né? Querendo que eu exponha a minha falsa mijada! – dei o veredicto às pressas.

– Não, muito obrigado – falei, atarracando os quinze quilos como se estivesse levando alguém desfalecido ao Pronto Atendimento.

Entrei no carro e sumi. E o filé? Ah, o filé ficou lá.

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