João

Vi João pela primeira vez há aproximadamente quatro anos. Isso aconteceu no estabelecimento onde ele trabalhava. Troquei com ele apenas um aceno de cabeça – quando entrei –, como se diz “olá” ou “bom dia”. Nada mais. Entendi que ele era um novo funcionário ali. Aproximei-me da prateleira que continha o que me interessava, peguei e voltei em direção à saída, passando pelo caixa.

Nessa época, eu saía muito pouco de casa. Reservava-me apenas para o trabalho. Pouco ia à rua. Quando ia, era para comprar alguma coisinha de que precisava. E nessas parcas vezes, passei a vê-lo de quando em vez – quando precisava ir ao mercadinho –, só que não íamos além de acenos. Nunca, até hoje, ouvi sua voz.

Um dia quis saber sua idade, mas somente fiquei a me perguntar. E cheguei à conclusão de que, talvez, não passasse dos dezoito anos. Barba, mal tinha. Não usava calças compridas. Em uma ou duas ocasiões, o vi na rua – fora do trabalho – a pé ou de bicicleta. Às vezes sozinho. Às vezes, com duas ou três pessoas – meninas – e, nesse caso, todos sorridentes e brincalhões. Jamais em silêncio.

João não tinha nada de atípico que, naquela época, me levasse a querer escrever a respeito dele. (Hoje, sim. Ao final, entenderá por que motivo este texto nasce.) Não tinha nada, nada mesmo, que despertasse a atenção de quem o visse. Era um garoto corriqueiro, do dia a dia, discreto e que trabalhava para ter seu dinheirinho. Mas, por causa de eu ser observador, procuro detalhes em todas as coisas que vejo e, naturalmente, faço antecipações a respeito de quem passa diante do meu olhar. Acredito que quase todos somos assim, mas eu sou demais. Acredite.

Eu o vi, recentemente, cruzando a rua. Estava parado no Pare, e ele passou de um lado para o outro. Olhou-me rapidamente, sorriu, a princípio por agradecimento, pareceu-me; em seguida, com mais espontaneidade por causa de ter-me reconhecido.

– Quanto tempo faz que não o vejo! – pensei.

Estava alto, com um ar de adulto, mais bem vestido, mais bem cuidado, mais vaidoso…

Ontem, coincidentemente, falaram-me dele. Soube que não tinha pai havia muitos anos. Tinha sido criado pela mãe, entre irmãos mais velhos e um mais novo. Soube que, há alguns anos, experimentou os mais cruéis azedumes da vida, como a escassez de recursos materiais – causadores da fome – e, como se não bastasse, o azedume preconceituoso, o rechaço dos grupos sociais em que experimentou estar, azedume que ainda persiste; não só para João, mas também àqueles que – sem poderem escolher – amam, segundo a sociedade, de maneira não convencional.

Soube que, a despeito de tudo, carregou consigo o sorriso e os bons modos, tratando cordialmente quem quer que fosse, tendo adquirido, pacientemente, a habilidade de resignar-se à preterição que vinha de todos os lados.

E a parte que mais me tocou: soube que João – hoje dono de seu próprio negócio – presta auxílio a pessoas que de alguma coisa precisam, como cestas básicas, acompanhamento ao médico, auxílio a uma Associação Protetora de Animais. Junta, com a participação de amigos e conhecidos, alimentos e os envia ao Asilo local, e outras coisinhas voltadas ao bem do próximo.

– João, João… Eu tive orgulho de você ao ouvir a sua história.

O mundo precisa de mais Joãos!

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6 Comments

  1. Conheço dois Joaos aqui na cidade. Um era menino quando o conheci.a mãe era bordadeira, de mão cheia, uma artista. O pai caminhoneiro, grosso e muito macho. Quando era ainda adolescente foi morar na Igreja, na casa paroquial, com o velho padre. Outro dia soube que mora sozinho, o padre deixou uma herança para ele.
    O outro Joao é meu amigo, querido, trabalha na livraria aqui perto.
    Amoele!

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