Anjo de guarda

Eu tenho uma amiga que sempre me diz:

– Édi, seu anjo de guarda é muito cuidadoso com você e não dá mole.

Eu tenho pensado muito nisso nos últimos dias.

Em dezembro de 2001, acabado de comprar meu primeiro carro, eu estava voltando de uma formatura. Eram aproximadamente onze horas da noite e, um carro, que não desligou a luz alta, bateu de frente comigo. O meu foi jogado, “de bunda”, para o acostamento. O painel veio aos meus joelhos. A porta entortou tanto, que não se abria. Tive de sair pela janela, cortando as mãos nos estilhaços de vidro.

Ao sair, não vi nada, a não ser as lanternas traseiras do meu, as únicas que ficaram acesas, pois as da frente tinham sido destruídas com a colisão. Lembro-me do som da batida (de lata) perfeitamente – até hoje – e um som que mais soava como um gemido de esforço para ficar ligado, como se o motor não quisesse “morrer”. Algo inusitado e muito estranho.

Algum tempo depois – azonzado com a situação, apropriado pelo desespero de “O que tá acontecendo e o que devo fazer agora?” -, ao longe, uma luz aponta no começo da descida da direção de onde eu vim. Dei-me conta de que era um caminhão. Sua luz, conforme se aproximava, me fez enxergar o outro carro justamente no meio da pista, em absoluto silêncio e sem nenhuma luz ligada. Um carro morto, cujo modelo não consegui distinguir. Na verdade, eu esperei que alguém saísse dele e viesse bravo, irado, querendo me espancar. Mas isso não aconteceu.

Conforme o caminhão se aproximou mais, senti um verdadeiro pavor. Antevi outro acidente. De imediato, o vi passar por cima do carro do meio da estrada, esmagando o motorista dele, ou seja, tudo acabando em uma catástrofe ainda maior. Corri para longe da pista, em direção a uma porteira que pude enxergar por meio da ajuda da luz do caminhão. Repito: eu estava extremamente assustado e sem saber o que fazer.

O motorista do caminhão percebeu que um acidente tinha acabado de acontecer e começou a frear, até que parou no acostamento. Desceu, e outra luz aponta novamente. Ele, o motorista, fazia acenos ensandecidos com os braços. Provavelmente para que tomassem cuidado. Ou era para pedir ajuda?

O carro parou. Era um casal que, imediatamente, veio ao meu encontro, perguntando se eu estava bem. Puseram-me em seu carro e me levaram ao hospital da cidade mais próxima. Ao chegar lá, entre sair do carro e deitar-me em uma maca, senti uma forte tontura. Lembro-me que alguém me segurou pelo braço.

Medicaram-me.

Mais tarde, a policiais rodoviários foram ao hospital falar comigo.

– Boa noite – disse um deles.

– Boa noite – respondi, inevitavelmente à espera de más notícias.

– Eu tenho duas notícias para dar a você. Uma boa e uma ruim. Qual você quer ouvir primeiro?

– A ruim – disse eu, sentindo um frio enorme na barriga.

– O motorista do outro carro morreu na hora do acidente. Estava sem cinto de segurança e teve o pescoço quebrado…

– Meu Deus! – exclamei, sentindo-me horrível, como se tivesse participado de um crime hediondo e, ao mesmo tempo, esperando que ele me dissesse que, ao sair do hospital, seria preso. Esperei que ele dissesse essas palavras finais, mas, surpreendentemente, partiu para a boa notícia. Bom, pelo menos ele achava que era uma notícia boa.

– A perícia esteve lá e a conclusão foi que você não estava errado. O motorista que colidiu com seu carro, sim, estava – falou, dando uns segundos para eu raciocinar. E, além disso, você tem a perda total do veículo, o que significa que poderá acionar o seguro e adquirir um novo.

Saber que eu não estava errado era bom. Porém, a “perda total” era uma péssima notícia porque eu não tinha seguro do carro.

O resto dessa história até merece ser contato, porque muitas coisas aconteceram. Tristes, inclusive. Mas não vou relembrar tudo aqui, novamente.

Em 2012, eu sofri um infarto – ou enfarte, se preferir – e, felizmente, fui socorrido às pressas e com tempo. Falo disso com todos os detalhes no meu livro – Letras que Voam.

Acredito que milhares de pessoas têm sorte diante de situações parecidas com as minhas. Ou têm anjos de guarda excelentes, como diz minha amiga? Muitas coisas aconteceram em minha vida, tanto antes quanto depois desses dois eventos que acabo de mencionar. Mas alguns me chamam mais a atenção.

Ontem, eu pus duas espigas de milho para cozinhar. Eram aproximadamente sete da noite. Em seguida, vim ao quarto, sentei-me na cama e comecei a fuçar a Internet. E, então, lembrei-me que tinha sido convidado para jantar na casa de uma pessoa.

Levantei-me da cama, passei pela cozinha, passei pela sala, peguei a chave do carro e saí. Fui jantar. Haveria feijoada. Não sou muito fã de feijoada, mas ontem senti vontade, de verdade, de comer.

Fiquei lá por mais de uma hora.

Do nada, meus anfitriões decidiram sair para tomar sorvete. E, claro, me convidaram. Mas eu não quis. Uma outra coisa de que não sou grande fã: sorvete.

Resolvi vir embora.

Ao colocar o carro na garagem, senti um cheiro estranho. Pareceu-me café torrado. “Quem, na vizinhança, estaria torrando café agora à noite?”, perguntei-me. “Ou será alguma coisa do carro que está queimando?”, indaguei-me.

Fechei o portão e voltei ao carro. Abri a porta e “cheirei” dentro. Não. Não era no carro. Mesmo assim, dei uma olhada debaixo dele. Nada também.

Ao abrir a porta da sala, o cheiro se me veio mais forte.

– É aqui dentro! – falei alto, soltando o celular e a chave do carro em cima do sofá e, enquanto corria para a cá, quarto e cozinha, pensei na possibilidade de os cães terem feito alguma “arte”, ou eu deixado alguma coisa passível de fogo, menos no milho cozido. (Torrado!).

Ao chegar à cozinha, que estava totalmente tomada por fumaça, lembrei-me do bendito milho. Corri, como se corre para salvar a vida de alguém (nesse caso, a minha?) e desliguei o fogão. Afastei-me imediatamente dele, pois – como em filmes americanos quando a vítima finalmente, depois de muito esforço, consegue sair do carro em chamas – a explosão pode ocorrer depois de se afastar.

Fiquei à porta, espiando a caneca “torrada” soltando fumaça, mais que uma lâmpada de gênio. O cheiro de “queimado” era insuportável.

Minuto depois, abri todas as janelas da casa, portas, e espirrei odorizante pela casa toda. Não ajudou em quase nada. E, com um cuidado misturado com medo, peguei um guardanapo e enrolei na alça da caneca e a pus sob a torneira, a fim de esfriá-la. O barulho foi “shhhhh”.

Não sei se coisa pior poderia ter acontecido, caso eu tivesse ficado lá na “feijoada” por mais tempo. “O fogão teria se incendiado?”, “O botijão teria explodido?”, “O fogão teria pegado fogo?”, andei me perguntando de ontem para hoje. Sei lá. Mas, de qualquer forma – creio, teria sido pior. Ou não?

Será que meu anjo de guarda incitou uma vontade de tomar sorvete nos meus anfitriões?

Anúncios

3 Comments

  1. Edi, você teve muita sorte. Em todos esses incidentes, e acidentes que enfrentou. Por favor não abuse de seu anjo. Eles cansam kkkkkkk
    Procure ficar mais atento, ao sair de casa dê uma voltinha para verificar se está tudo bem. Não custa. Quanto aos outros problemas, você realmente foi abençoado. Também tive momentos desses, inclusive com acidente de carro, quando todos achavam que eu já era…rsrs
    Mas outro dia conto. Senão esse comentário vira romance 😊
    Muito bom te ler, adoro! Fique bem, boa noite.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Edi.. seu anjo da guarda é muito cuidadoso com vc e nao da mole, nao brinca em serviço mesmo .. agradeça o sempre❤️ Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador, ja que a ti me confiou a piedade divina, me reje, me guarde, me governa e me ilumina .Amem 🙏

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s