Silêncio, por favor!

O celular estava tocando. Abri os olhos, levantei a cabeça a um palmo do travesseiro, completamente zonzo de sono, visão turva por causa da falta dos óculos – o que quer dizer que não estava conseguindo distinguir muita coisa ao meu redor – e, quando finalmente o encontrei, deslizei a bolinha vermelha, recusando, com muito amor, a chamada. Sim, sem querer saber, ao menos, quem estava me ligando – antes que você se faça a pergunta. E, sim, “vermelha”, porque não sou daltônico.

Deixei a cabeça cair sobre o travesseiro, como se solta o capô de um carro a fim de que ele não fique mal fechado.

O outro celular começa, numa balbúrdia quase dançante, a tocar logo em seguida. Senti um calor passear pela espinha dorsal – e quando isso acontece, meus sentimentos também começam a passear, de modo sincronizado com a intensidade da quentura, por regiões cerebrais onde a indignação e a raiva estão alojadas. Para você que pouco me conhece – só para você ter uma ideia –, eu me irrito até quando não acerto o buraco da chave da porta de casa, do buraco da ignição do carro, quando ouço alguém na vizinhança ouvindo o Pablo cantando que “homem não chora” – mas já tive grandes desejos de chorar nestas horas, acredite. (Ah, e naquelas também.) Se essas coisinhas bobas – presumo que você as achará bobas – me incomodam, imagine-me ao ouvir celular tocando quando meu espírito não está esperando supetões sonoros. Só para constar, em todos os casos acima e em outros que não vou mencionar, meu vocabulário, ainda que em voz baixa ou só em pensamento, oscila simultaneamente com o passeio da referida há algumas linhas.

E lá fui eu, uma vez mais, à procura – usando o tato como sensor – do outro aparelho. Deslizei a bolinha vermelha. Recusei!

Você não acha que recusar chamadas em certos momentos, responder “não” em outros, virar as costas e sair andando, quando esperam o contrário de você diante de uma provocação, tudo isso e outras peculiaridades têm um efeito terapêutico, restaurador, que atingem um ponto consideravelmente comparável ao de um orgasmo? Não? Eu acho. Experimente. Creio que adorará. Mas aviso: depois da primeira vez, você não para mais, e as pessoas passarão a vê-lo como estranho, esquisito, bizarro, rude e até mesmo grosseiro. Sim, isso mesmo: grosseiro e rude; em um mundo que fica falando toda hora que ser franco e sincero, genuíno é recomendável.

Antes de me reacomodar no travesseiro, o indivíduo liga de novo.

– Ordinário! – falei, quase taquicárdico, recusando a chamada pela terceira vez.

Aterrorizado, coloquei os dois aparelhos no “modo silencioso”.

Com fé e vontade, joguei-me de volta à cama. Na verdade, eu estava de bruços e já com meio corpo levantado. Apenas soltei-me de volta. No entanto, não consegui dormir mais. Meu nível de consciência a essa altura já me permitia ouvir os pardais de lá de fora, carros que passavam e outros ruídos incompreensíveis.

Desisti de continuar a dormir. Era quase uma da tarde – horário de verão chato! Sentei-me na cama e, não, não fiz alongamentos, embora ache que seria o máximo se eu tivesse desenvolvido o hábito, como Glória Pires faz toda vez que acorda em Se eu fosse você.

Fim.

Anúncios

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s