Duas histórias em uma

— Você não vai escolher?

— Desculpe-me. Distraí-me – falei e peguei o cardápio, endireitando-me na cadeira. — Você já pediu? – perguntei à Silvana.

— Já! Você não ouviu? Não viu?

— Vamos ver – como se não tivesse ouvido suas perguntas, falei. — Quero arroz, um filé de frango grelhado e um suco de abacaxi com hortelã – informei ao garçom. — Ah, bem passado. Não quero ouvir a galinha cacarejando na minha boca, hein! – estimulei uma descontração, que foi correspondida pelo rapaz.

— Só isso? – Silvana me perguntou rindo.

— Só isso! Ando vaidoso ultimamente. Nada de abdome protuberante – terminei gargalhando, sem medo de ser notado.

O garçom se afastou depois de anotar.

— Você viu aquele casal de rapazes que passou aqui na frente agora há pouco?

— Não. Casal? Como assim?

— Estavam abraçados… Como dois namorados!

— And? – Silvana sorriu ao perguntar.

— Achei o máximo, uai!

— Hoje em dia, isso é muito comum.

— Sim – concordei. — Eram lindos, por sinal.

— Gostaria de tê-los visto.

— Só que eles se soltaram depois de sair desta calçada – informei-lhe. — Quando os vi vindo, fiquei a pensar na coragem que têm.

— Realmente. Não ter medo de se mostrar é uma questão de coragem.

— Sem dúvida. Apesar de já existir tolerância… – interrompi rapidamente e acrescentei – “aceitação” de uma grande parte da sociedade, ainda há muito preconceito permeando a mentalidade das pessoas – pensei por um instante e perguntei. — Que tipo de restaurante é este?

— Como assim? – ela esboçou espanto e curiosidade no olhar. — Restaurantes são lugares aonde as pessoas vão comer – fez um gracejo e balançou a cabeça rapidamente para lá e para cá.

— Eu sei disso, né? Tá vendo aquelas duas mesas ali? – falei apontando com uma inclinada de cabeça às quatro moças sentadas à direita, no lado de fora do cercado de ferro.

— Tô.

— São dois casais. Ou estou alucinando?

— Sim. São.

— Você já as tinha notado?

— Já.

— As quatro são lindíssimas, né?

— De fato, são – concordou comigo. — E super femininas; conseguiu perceber?

— Yes – gracejei. — Além delas, há outro casal de rapazes sentados atrás de você.

— São bonitos?

— Consigo ver apenas o rosto de um, e ele é, digamos, bonitinho. O outro tá de costas para cá.

— Se eu olhar para trás, vão perceber minha curiosidade?

— Provavelmente vão. Não olhe agora – falei rapidamente. — Mas me responda. Este lugar se trata de algum restaurante típico a esse público?

— Não sei dizer. Mas creio que é para quem quiser vir.

— Aonde você vai? – gritou um homem grisalho, andando a passos largos atrás de uma moça.

— Embora! – gritou ela de volta.

— E não vai pagar a conta?

— Que conta? – ela gritava ainda.

— Você vem ao meu restaurante, come e bebe o que quer e, de repente, sai andando? – nesse momento, todos os outros clientes estavam silenciosamente ouvindo o bafafá.

— Sim! A comida estava horrorosa.

— Horrorosa? Por que comeu tanto, então?

— Olhe aqui, fale baixo comigo. É uma ordem! – alertou a mulher, apontando o dedo para o nariz do homem, chegando bem perto e deixando seu rosto a menos de dois palmos do dele.

— Ordem? Ordem é você pagar! – berrou o proprietário do estabelecimento.

— Não vou pagar!

— Ah! Vai sim.

— Vá falar com meu marido, então.

— Onde ele tá?

— Dormindo debaixo do viaduto – respondeu ela.

— Viaduto?

— Isso mesmo. Não vê como estou vestida? Olhe para mim! Sou uma moradora de rua! – disse apontando para as calças azul-escuras e a blusa de frio da mesma cor.

— Brian! Brian! Venha aqui – ordenou o homem a um rapaz robusto, de academia (marombeiro?), que prontamente se aproximou e tinha a visível intenção de intimidar a moça com seu tamanho.

— Afaste-se! – gritou ela ao rapaz. — Você não me dá medo!

Uma mulher se aproximou, em sua blusa e saia brancas, elegante com seu colar, porém sisuda.

— Atrevida! – disse olhando para nós. — Acreditam que ela entrou no restaurante falando em inglês e contou uma história toda maluca?

— É mesmo? – perguntei, emparelhando-me à sua indignação.

— Sim!

— Todos nós ficamos desconfiados de que algum problema teria. Acho que Brian resolverá a situação.

— Também acho – respondi. — Com o tamanho dele, e seus olhos verdes, a moça terá duas alternativas. Sair correndo de medo ou se jogar nos braços dele. Dependerá de sua perspectiva, né? – ri quase alto.

A mulher caiu na gargalhada.

Em pouco tempo, policiais começaram a chegar e a cercá-la. No final, havia uns dez, acho. Ainda assim, a moça continuava, destemidamente, a falar em voz alta. Inclusive com os policiais.

Brian resolveu ter uma iniciativa. Arrancou a mulher do meio do círculo, abraçou-a com um dos braços e saiu, bem devagar, conversando com ela, e em voz baixa.

Minutos mais tarde, ela saiu andando embora. Os policiais se foram. Brian voltou ao posto, à porta. O casal retornou ao trabalho.

De lá de dentro, ouvi a mulher de branco, ao caixa, recontando o acontecido a um cliente.

— Se eu contar uma história em inglês para você, você me dá um descontão na conta ou, quem sabe, uma chance de ir embora sem pagar? – perguntei rindo a ela.

Ela riu comigo.

Fomos embora. Não sem pagar, claro!

OBS: Se você leu até o fim, escreva “Li tudo” em comentários. Obrigado por vir aqui e ler. ❤

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