Tchau!

A freada prolongada dos pneus de uma picape preta chamou a atenção de todos os clientes da padaria do Seu Nelson, que estavam sentados às mesas dispostas ao longo da calçada.

Dona Telma, com a sacola de pães até a boca, paralisou-se em um dos degraus da porta, assombrada e boquiaberta, desacreditando no que estava vendo. A porta do passageiro se abriu violentamente, e uma moça, em seus trinta e poucos anos, foi literalmente lançada para fora do carro, caindo ao chão, tendo os óculos de sol jogados para longe, que, segundos antes, se acomodavam em sua cabeça como se fossem uma tiara. A bolsa que imitava couro, e que descia à altura de seu quadril, caiu num estalo para ficar ao lado das lentes pretas.

— Volta aqui, seu vagabundo, seu sem-vergonha! Para aí! – gritou ela, levantando-se rapidamente do asfalto empoeirado para correr atrás do veículo, que saiu cantando pneus, distanciando-se, e, pela janela do motorista, saía um braço gesticulando deboche e desprezo.

Ao ver o carro desaparecer em uma esquina, desistiu da perseguição e parou no meio da rua. Permaneceu ali por alguns segundos, estática, visivelmente desacreditando no que acabara de acontecer. Virou-se para a silenciosa plateia de desconhecidos, fingiu estar sozinha, e começou a andar na direção de seus pertences deixados para trás. Agachou-se para apanhá-los. Levantou-se, ajustou a bermuda cáqui, que tão bem combinava com seu corpo bem cuidado, bateu as mãos na camiseta verde-escura a fim de se limpar e, antes de devolver os óculos à cabeça, refez o coque negro, que ficara desarrumado pela queda.

Um tanto claudicante, começou a caminhar – resmungando xingamentos – na direção de onde o carro tinha sumido, sem sequer dar importância ao fato de ainda estar no meio da rua.

A alguns passos mais lentos atrás, Dona Telma vinha com seus pães nos braços, fazendo o caminho de volta para casa.

Antes de chegar ao final do segundo quarteirão, a moça parou e debruçou a testa no poste de energia em frente ao prédio onde Dona Telma morava. Seu choro destampou a gritar, denunciando a tristeza da rejeição, o desespero de ter sido abandonada, igual a qualquer um que, de supetão, se sentiria desamparado no meio do nada, engolindo a saliva com gosto de adeus.

Dona Telma abraçou a sacola como se abraça uma criança de colo de modo a protegê-la do frio, na tentativa de recompor-se, preparar-se para passar pela desconhecida. Tentou ignorar a aflição que sentia ao ouvir os soluços da mulher repudiada, mas não conseguiu. Sentiu-se comiserada, teve impulso de parar, tocar-lhe o ombro e dizer-lhe algum tipo de conforto. Não o fez, no entanto.

No instante em que passou pelo poste, a moça levantou a testa e olhou, com seus lindos olhos negros, porém inchados e avermelhados, para Dona Telma. Raspou a garganta, ajeitou a camiseta, segurou a bolsa e saiu andando. Seguiu rua adiante, gaguejando a amargura daquele momento.

Dona Telma subiu os degraus da entrada de seu prédio, pensativa e entristecida pelo que acabara de testemunhar. Abriu o portão, entrou e encostou-o, sem olhar para trás. Já tinha visto o suficiente para lembrar-se daquilo tudo por muito tempo.

— Onde estarão as pessoas que, de verdade, se importam com essa moça, meu Deus? – Dona Telma perguntou-se a caminho do elevador. — Por que algumas pessoas se submetem a tal humilhação, fazendo vista grossa à própria dignidade?

— Mãe! Segura a porta do elevador pra mim! – uma moça gritou de lá do portão e veio correndo. — Obrigada – falou meio ofegante e beijou sonoramente uma das bochechas de Dona Telma. — Eu te amo, mãe.

— Eu mais ainda – respondeu a mulher, sentindo um leve nó na garganta.

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4 Comments

  1. Sei lá o que eu faria. Talvez apenas passasse pela moça e entrasse em casa. Talvez parasse e perguntaria a ela se tinha um telefone, se queria falar com alguém. Sei lá. O mais duro é pensar que talvez ela ainda se encontrará com esse canalha e aceitará, quem sabe, ser jogada outras vezes numa rua… Depende apenas dela, né?

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