Um capítulo para se ler

A mesa da telefonia era larga e cheia de botões. As chamadas, tanto as internas quanto as externas, eram anunciadas pelo toque em si e por uma luz vermelha que acendia dentro do botão e ficava piscando.

Estar ali significava não ter tempo para quase nada. Quando André tinha de ir ao banheiro, por exemplo, seu colega uruguaio, que ficava ao lado, era deixado sozinho, quase enlouquecendo com as incansáveis ligações. E vice-versa.

Atrás deles, sentada a outra mesa e sempre atarefada, ficava Lúcia, a chefe dos dois. André a achava estranha. Em seus cabelos curtos e meticulosamente arrumados de modo a não se desarrumarem jamais, ela sempre estava lá quando entravam na sala, no começo do expediente. Nunca a viam no refeitório durante o café da manhã nem durante o almoço, momentos em que a maioria dos funcionários se reunia. André achava que ela se comportava como se fosse uma celebridade. Parecia preferir evitar contato com os funcionários fora do horário de trabalho.

— Depois de dizer o nome do hotel, diga “bom dia”, André – falou ao rapaz no primeiro dia, em seu tom impositivo de praxe.

— Sim, senhora – André respondeu meio acanhado. — Desculpe-me.

Na segunda-feira, Manolo já estava lá, atendendo às chamadas, quando André chegou. E Lúcia, naturalmente, em seu posto. Ficou confuso. Olhou para o relógio e viu que ainda faltavam cinco minutos para o turno começar.

— Bom dia – André falou em voz baixa, indo rumo à sua cadeira.

Lúcia não respondeu.

Fazia dez dias que André tinha sido contratado. Poucos, mas o suficiente para ter entendido que a mulher também tinha o humor instável. Tinha manhã em que seu “bom dia” era surpreendentemente espontâneo a ponto de quase ecoar pelo corredor, dali à recepção. Em outras, ela nem respondia ao cumprimento. E quando estava assim, azeda e mais autoritária, as horas pareciam se arrastar. O meio do dia era um ponto minúsculo e distante, diminuto até onde podia.

Por volta das nove e meia, ela saiu de sua mesa e se posicionou atrás dos dois rapazes. Por cima de suas cabeças, colocou um pedaço de papel com uma mensagem sobre os botões da mesa: Preciso me ausentar por alguns minutos. Reunião com o gerente.

Manolo e André apenas balançaram a cabeça em consentimento. Assim que ela saiu, os dois se entreolharam com ar de satisfação.

— Por que você já estava aqui quando cheguei? – André perguntou, ignorando rapidamente o piscar dos botões.

— Ela foi me chamar no refeitório – o colega respondeu com sotaque hispânico e, em seguida, apertou mais um botão. — Qual é o nome do hóspede, senhora? – Manolo perguntou ao pequeno microfone sustentado por uma fina alça de metal que vinha do ouvido. — Está no apartamento 312. Um momento. Vou transferi-la – e passou a chamada para o apartamento referido em um clique. — Por causa de seu protegido, Luciano, que precisou sair mais cedo – falou, voltando-se para André e, novamente, apertando mais um botão.

André pressionou o botão número onze, o próximo da sequência. Falou o nome do hotel e não se esqueceu de dizer “bom dia”.

— Bom dia – a voz, que rapidamente lhe soou familiar, falou educadamente do outro lado da linha.

André sentiu-se estremecendo, e feliz. Fez um sinal de que precisava de ajuda com a mesa a Manolo. Ele fez “sim” com a cabeça.

(O resto do capítulo estará no livro.) – Édi Ribeiro 25/02/2017

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