Você está me acompanhando?

Com as duas mãos segurando sacolas de supermercado, lá vinha eu; começando a achar que, antes de ter caminhado cem metros, elas já estavam pesadas.

Cruzei a primeira metade da Rio Branco às pressas ao me dar conta de uma pequena brecha do trânsito, no meio do quarteirão, já que não estava com saco para ir à faixa de pedestres e esperar até que o sinal me desse sinal para passar, e fiquei plantado no meio da avenida, com cara de desolado, à espera de mais uma chance de deixar a segunda metade pra trás.

Quem me visse diria que eu me parecia com um cachorrinho que se agarrou ao primeiro montinho de terra para esperar a enxurrada passar e não ser levado.

Troquei as sacolas das mãos acreditando que seus pesos eram diferentes e, assim, um dos braços poderia descansar um pouquinho.

A oportunidade de chegar ao outro lado surgiu. Não hesitei. Mal esperei o último carro rosnar por mim e passei logo em seguida.

Era fim de tarde, e o céu esperava seu momento de começar a escurecer-se. As pessoas já estavam com aquele jeitinho de quem, afobado, caminha em busca de um ponto de ônibus ou da estação de metrô mais próximos. Era a correria típica daquele horário anunciando que, em pouco tempo, o centro estaria esvaziado e silenciado. Seria apenas visitado, mais tarde na noite, por aqueles de quem a gente desvia instintivamente quando precisa sair de casa por um motivo ou outro.

Cheguei, depois de ter alternado o momento de descanso dos braços por diversas vezes, ao Largo do Paissandu.

Antes de começar a cruzar a São João, perto de onde eu morava – não via a hora de largar as compras no tapete da sala e sentar-me no sofá, abandonar-me ali mesmo – alguém me interrompeu:

— Você sabe onde fica a 25 de Março?

Vinte e cinco de Março a esta hora?

Olá. Boa tarde. Você pode me dar uma informação, porque sou educado e sei cumprimentar?

— 25 de Março? – falei apertando um lábio no outro, como a fazer força para me lembrar de como chegar lá, enquanto o rapaz me olhava com um olhar de quem não tinha pressa, e pra falar a verdade – posso estar enganado, agora pensando nisso enquanto escrevo este texto –, nem de quem realmente queria ir a algum lugar.

E as sacolas de cor estranha para sacolas de supermercados já estavam brincando de puxa-puxa comigo.

Preciso me livrar disso.

Rapidamente encontrei uma única vaga lembrança de como chegar à metade do caminho.

De qualquer forma, terei sido útil e helpful.

Comecei a explicar.

O olhar dele pareceu estar mais atento, e sua testa começou a franzir. Sabe quando a gente enruga a testa para mostrar que está unicamente concentrado na explicação?

Entusiasmado por recobrar mais detalhes do trajeto, comecei a adicioná-los, com poucas pausas para respirar, à descrição.

O rosto do rapaz – mais uma vez se manifestando (imagine-me revirando os olhos ao dizer isso) – de repente assume ar de confuso.

Interrompi minha narrativa e, dando uma leve pendida de curiosidade na cabeça, perguntei-lhe:

— Você está me acompanhando? – tentei soar cordial.

Como se eu o tivesse arrancado de uma viagem agradável, ele, num pequeno sobressalto, me perguntou.

— O quê?

— Quero saber se você está me acompanhando – aventurei-me na pergunta indireta, esperando ter sido mais claro.

Ele não pareceu apenas confuso. Ele pareceu apenas mais confuso.

— Não sei – respondeu-me. — Pra onde você tá indo?

Olhei rapidamente para o alto e vi que, atipicamente, o céu paulistano tinha estrelas. A noite acabara de chegar.

— Tá vendo aqueles carros ali? – perguntei, apontando para a esquerda, do outro lado da avenida.

— Que que tem?

— Chamam-se táxis – falei como se tivesse acabado de oferecer-lhe a melhor solução. — Eles podem te levar lá, ou, se não estiver a fim de tomar um, um dos taxistas vai explicar bem melhor do que eu.

Meu tom foi de despedida.

Eu e ele fizemos um sinal de consentimento um pro outro.

— Boa sorte – finalizei.

O elevador estava vazio, para a minha alegria.

Sentei no chão dele e esperei o bendito andar chegar.

Anúncios

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s