Prazo de Validade – Capítulo 1

Sim, eu tenho certeza de que meu coração está batendo rápido demais, como se eu tivesse chegado ao ponto final de uma maratona. Na verdade, estou morrendo de medo; e assustado. Há poucas horas – como tem ocorrido há quase um ano –, eu tinha certeza que isso ia acontecer agora, às três da madrugada e, por isso, vim dormir aqui no sofá da sala, à beira da janela aberta, caso eu precise que alguém me ouça gritar por socorro. Há quase um ano, tenho preferido passar a noite aqui, sim. Deixado o celular ao meu alcance, já com o número da emergência digitado.

— O que vou fazer?

Sento-me no sofá. Meus pés tocam o chão de tacos envelhecidos, arranhados pelas pisadas ao longo dos anos, levemente frio, coisa que provoca certo alívio às minhas solas calorentas. Levanto-me para certificar-me de que posso ficar em pé, mas concluo que não consigo. Minhas pernas estão trêmulas demais para isso. Sento-me novamente, apoio as duas mãos sobre a beirada do sofá. Levo a ponta dos dedos à pulsação do braço esquerdo. A minha frequência cardíaca está absurdamente acelerada. Coloco a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, e ele também me pede para tomar uma decisão, e que seja decisiva. De supetão e contra a minha instabilidade física, levanto-me, vou à cozinha e rapidamente acendo a luz. Preciso sair da escuridão. Sentir-me desafogado. Procuro, ruidosamente, um comprimido específico dentro da fruteira de vidro, aquele que regula o ritmo cardíaco. Com pressa, jogo dois dentro da boca e corro à torneira da pia, que é mais prático do que abrir a geladeira à procura de água. Engulo-os de uma só vez.

Caminho rumo ao corredor e começo a acender todas as luzes da casa. Vou ao banheiro e me olho no espelho. Minha cara está mais vermelha do que nunca. Minhas olheiras estão ridiculamente visíveis.

— Meu Deus, o que está acontecendo comigo?

Sem titubear, vou ao quarto, procuro uma bermuda e encontro a mais amarrotada de todas. A camiseta está jogada no lado de lá da cama. Dou a volta e a alcanço. Lembro-me de ter deixado os meus chinelos perto do sofá.

Sinto suor frio brotando da minha testa e, em seguida, percebo que os cantos da minha boca estão ardendo, como se eu tivesse chupado uma laranja com casca.

— Anda logo! – falo em voz baixa. — Não vai dar tempo!

Desesperadamente começo a vascular os lugares em que a chave do carro possivelmente estará. Não a encontro. Começo a abrir todas as gavetas dos móveis da sala, e não fecho nenhuma. Olho na mesa da cozinha, dentro da fruteira. Olho em cima da geladeira, da pia, e finalmente a encontro na estante do quarto.

Abro a porta da frente apressada e ruidosamente. Entro no carro e dou partida no motor. Saio à rua principal numa velocidade acima do ideal.

Chego ao hospital.

— Eu tô passando mal – falo desesperadamente à atendente.

— O que você tá sentindo?

— Não sei – respondo ofegante. — Só sei que vou morrer.

Encaminham-me rapidamente a uma sala onde começam a medir minha pressão arterial e, enquanto isso, a voz da recepcionista pede, pelo interfone, a presença do médico plantonista.

— Tá um pouquinho alta – o enfermeiro diz com voz calma.

Não sei se é para mim que ele diz, ou se é para a moça ao lado dele.

— Alta quanto? – quero saber.

— Só um pouquinho – ele fala enquanto faz uma anotação.

Pelo movimento da caneta, percebo o número dezoito.

Fico mais preocupado. Mais apavorado. Mais aterrorizado.

O médico chega calmo. Cumprimenta-me como se eu tivesse ido lá apenas para tomar o lanche da madrugada com eles. Ordena que façam um eletrocardiograma e sai da sala.

Minutos depois, que pareceram uma eternidade, ele, com a mesma calma, me anuncia que tudo está OK, que vão me dar um medicamento e que, depois, poderei voltar para casa.

— Fique tranquilo. Acalme-se.

Um pouco mais tarde, deitado numa cama, começo a me sentir relaxado e sonolento. A ardência labial vai, aos poucos, se retirando, e meu coração parece se desacelerar.

— Não dirija mais que a distância daqui à sua casa – me aconselham. — Deite-se e durma. Descanse.

(Édi Ribeiro – 30/03/2017) – Você gostaria de ler o Capítulo 2?

 

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