Prazo de Validade – Capítulo 2

O dia amanhece.

Vejo que ainda estou vivo.
Percebo alguns raios do sol entrando pela janela, batendo nos tacos da sala e na minha roupa jogada.
Ouço carros e vozes na rua.
Olho para o relógio na parede oposta, e ele me diz que já são quase nove horas.
Pergunto-me se estou com vontade de tomar café. Investigo se estou com vontade de sair dali, dobrar o lençol e o cobertor, guardar o travesseiro. Quero saber se estou a fim de tomar um banho, de escovar os dentes, de pentear os cabelos, de sair à rua e ver a vida acontecer. Respondo que não a todas as perguntas. Sinto náusea só de imaginar.
Adormeço novamente. Tenho sonhos esquisitos, em que falo idiomas indistinguíveis, com pessoas que nunca vi na vida e, de repente, estou caminhando pelo Viaduto do Chá em São Paulo, em meio à multidão apressada. Dali, vou às Las Ramblas em Barcelona e, do nada, me encontro andando pela Avenida Paulista, absolutamente vazia, o que permite meus passos ecoarem, como se eu estivesse andando em um túnel sombrio e vazio. Gotas caem com segundos de distância entre uma e outra.
Escuto batidas fortes na porta da sala. Abro os olhos assustado. Espero por um momento, tentando apartar o sonho da realidade, e as batidas voltam a soar.
Levanto meio corpo, desajeitado, e pergunto com voz grogue, em tom decrescente:
— Quem é?
Não me lembro se responderam. Não sei se me responderam.
Deito-me de novo, de bruços, e pareço querer cair no sono. Meu braço esquerdo fica pendurado, relando no assoalho empoeirado.
Não sei se dormi outra vez.
Olho no relógio, e já são quase três da tarde.
O telefone toca a dois metros de mim. Tento não dar atenção a ele. Olho para o celular quieto sobre o chão, no mesmo lugar onde foi deixado na madrugada anterior, enquanto o da mesa insiste em fazer barulho. Sinto-me irritado. Eu deveria cortar o fio e emudecê-lo de uma vez por todas.
Ele se cala.
Minutos depois, ele volta a tocar.
Arrastando-me para fora do sofá, alcanço o fio e o desconecto da parede, e o silêncio se instaura novamente. Sinto-me aliviado.
Volto para o sofá e me sento nele. Fecho os olhos e seguro o pé do nariz com as pontas dos dedos, enquanto meu cotovelo se apoia em minha coxa pelada.
Tiro os dedos do nariz e começo a massagear minha testa. Vou às têmporas e as sinto doloridas.
Sinto-me doente. Irreversivelmente doente.
Novamente percebo meu estômago nauseado, horrivelmente nauseado.
Faço um débil esforço para pensar em alguma coisa que me deixava entusiasmado em outros tempos, à procura de combater meu estado deplorável. Rememoro algumas das minhas melhores ambições de meses antes. Penso em melancia e em jabuticabas, frutas que tanto amava. Penso em alguém por quem senti absurda atração física, tento relembrar as sete notas musicais e suas posições no braço do violão, penso no meu perfume preferido. Nada disso me faz querer levantar dali, tomar coragem e ir visitar o sol, o vento, a vida… Penso em minha mãe e começo a chorar copiosamente. Seco o rosto com as palmas das mãos. Depois uso a quina do lençol para fazer isso.
O relógio me avisa que a hora do almoço já se foi faz tempo, e que se eu tiver intenção de comer algo vai ser só na janta. Dou de ombros mentalmente, como se fosse uma criança emburrada. Quem vai fazer a janta? Onde tem janta?
— Não tenho intenção de nada. Que se dane – murmuro com tristeza.
O celular toca. Sem virar a cabeça, o espio. Não consigo visualizar o número. Estendo a mão e recuso a chamada. Em seguida, o desligo.
Passo minutos e mais minutos ali, prostrado, suspirando sonoramente de quando em quando. Busco a razão, mas não a acho. Creio em sua inexistência.
São quase oito horas da noite. Acho que é hora de tomar o remédio. Não tenho certeza.
Levanto-me e vou lentamente à cozinha, apoiando-me nas paredes e portais da casa. Engulo dois comprimidos de horários diferentes. Não me importo.
Sento-me à pequena mesa de comer, debruço sobre sua pedra fria e suja de migalhas de pão e de outras coisas, e ali fico mais um tempo.
Resolvo ir para o quarto. Mas antes, pego o travesseiro, o lençol e o cobertor que estão no sofá da sala.
Deixo-me cair sobre a cama, levando-a a um rangido.
O meu entorno parece girar. Tenho a sensação de estar caindo em um abismo escuro. Assusto-me e abro os olhos. A luz fraca da iluminação da rua está entrando pela janela da sala, passando pelo corredor, chegando até a porta do quarto, me avisando de que já é noite.
Não sinto fome nem sede. Não sinto vontade de ir ao banheiro para necessidade alguma. Apenas sinto minha garganta seca. Tento engolir saliva, mas o atrito do movimento me incomoda. Arde.
Procuro o interruptor. Quero acender a luz. Apalpo aqui e ali. Acho-o.
Depois de algum tempo, ora mirando o teto branco, ora com os olhos fechados, vendo pontinhos de luz perambulando como se fossem um formigueiro, sento-me na cama.
Saio do quarto e vou à sala. Acendo a luz. É mais de onze da noite.
Vou à cozinha e tomo um pouco de água.
Volto à sala, espio a rua, que já está vazia e silenciosa.
Penso que talvez um banho me faça sentir melhor. Mas decido que não.
Vou ao quarto, pego o travesseiro, o lençol e o cobertor e os levo de volta para o sofá. Disponho-os de qualquer jeito e me deito.
Sou maior que o sofá e, por isso, uso uma cadeira para sustentar minhas pernas. Reajusto a distância entre a cadeira e o sofá, puxando-a com os calcanhares.
Fico em silêncio, escutando o meu corpo. Minha mente anda da cabeça aos pés, como se fosse um detector de defeitos.
A cabeça ainda dói um pouco. A testa está pesada. O globo ocular de cada olho, levemente dolorido. O estômago parece estar acalmado. O peito parece estar fisicamente em paz. As pernas também. Às vezes sinto coceira na sola de um dos pés, ou na ponta dos dedos.

(Édi Ribeiro – Março de 2017)

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