Ninguém sabe de nada

Começo a cantarolar baixinho. Minha canção antiga chama sua atenção, e ela se vira no assento da frente, me encara por cima dos aros dos óculos e me pergunta se acho que vai demorar. Minha resposta, misturada com um sorriso, vem otimista de propósito:
— Não. Creio que não.
Sem dizer nada, desvia o olhar para a planta artificial na quina do corredor que dá acesso ao consultório do médico. Suponho que tem por volta de cinquenta e dois anos e enxergo, atrás da discreta maquiagem, alguém sofrendo calado.
Obedeço à vontade de querer saber por que está ali. Ela se volta para mim e, durante os poucos segundos seguintes, parece analisar o que vai dizer. Enquanto isso, me arrependo do modo idiota da minha pergunta.
Então sua resposta sai, porém indistinta. Aproximo o ouvido. Ela aponta para a cabeça e repete.
Recosto-me no assento. Fico sem saber o que dizer.
— É a vida – ela fala com resignação.
Continuo calado. Procuro alguma coisa sensata para dizer, mas não acho. E, em vez, pergunto:
— Mas está em tempo, não?
Ela faz que não com a cabeça, enquanto uma lágrima escorre.
— Eu sei que vou morrer.
— Todos iremos – acrescento, como se isso bastasse.
— Mas eu morrerei antes da hora…
— Quem disse?
— Eu sei. Eu sinto.
— Pare de saber. Pare de sentir – falo como se a conhecesse por anos. — Ninguém sabe de nada.
Ela firma o olhar para mim e parece estar pensando. Juro que a vejo olhando para um horizonte diferente e melhor.
A sua vez chega. Se levanta, estende a mão e se despede sorrindo timidamente.

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