Prólogo

São 10h21min da noite. Estou caminhando propositalmente despreocupado pela calçada do lado oposto ao prédio em que o Augusto mora. Na rua, além das árvores que a ladeiam, há apenas eu. Paro em frente, no rumo da entrada do prédio, coloco a mão em um dos bolsos da bermuda, que já está larga demais para mim, e desnecessariamente verifico que a chave do apartamento dele está lá.  Levanto o olhar para a sacada do terceiro andar em que a luz da sala não está acesa. Sei que ele ainda está no trabalho, que sairá à meia-noite e que só chegará depois da uma da manhã, tempo suficiente para que eu consiga fazer tudo sem dificuldades. Fico ali por alguns segundos, dou um suspiro mais forte e cruzo a rua. Antes de apertar o botão do interfone, a porta se abre, produzindo um estalo metálico discreto. Ao passar pelo porteiro, cumprimento-o com um movimento de cabeça – noto que ele me olha com curiosidade – e continuo andando na direção do elevador, que começa a subir obediente após o meu comando.

Acendo a luz, tranco a porta, passo pela sala e entro no quarto de hóspedes, onde eu tenho dormido durante os últimos quinze dias. A claridade da sala é o suficiente para eu enxergar a cama e a minha mochila ao lado dela. Caminho até lá, pego-a, sento-me sobre o colchão ainda rígido pelo pouco uso, enfio a mão dentro dela. Não encontro o que estou procurando. Esvazio-a sobre o lençol amarrotado. Caem dois pares de meia, a caneta que roubei da minha mãe certa vez, um pequeno bloco para anotações marcado por sujeira de dedos, um isqueiro velho, todo arranhado, e alguns clipes de papel, além de algumas sujeirinhas da mochila. Penso por um instante, tentando me lembrar se o troquei de lugar, mas tenho certeza de que não fiz isso. Abro os bolsos laterais e noto que o papel que tem a lista das coisas que planejei deixar feitas está mal dobrado, diferente do que eu deixei.

Às pressas e violentamente, arranco o lençol da cama. Vou à cozinha procurar uma tesoura. Não encontro. Ruidosamente abro uma gaveta, pego uma faca e faço quatro cortes iniciais em uma das beiradas. Enquanto o rasgo de fora a fora, sinto um pouco de suor na testa. Emendo uma ponta na outra e obtenho uma espécie de corda suficientemente longa, e resistente para suportar o meu peso. Dou fortes puxões nos nós para que se firmem. Faço um laço em uma das extremidades. Viro para a porta e, sem pensar muito, descubro que a outra será amarrada na barra de ferro do parapeito da sacada do apartamento.

Olho para o rádio-relógio sobre a tevê, e são seis minutos para as onze. Sinto fome, mas não vou mais precisar comer.

Vou ao quarto, pego a caneta e uma folha do bloquinho amarelado. Paro à porta e, ao dar o primeiro passo para fora dele, dou uma olhada geral no ambiente. Despeço-me dele em pensamento, espectador dos meus pesadelos. Em seguida, dirijo-me de volta à sala. Faço uma anotação e empurro o papel para o centro da mesa de vidro redonda. Antes de colocar a caneta sobre ele, acaricio-a, lembrando de minha mãe.

Com a corda improvisada em uma das mãos, vou em direção à sacada. O ar fresco da noite colide com o meu rosto quando deslizo a porta de vidro.

Estou pronto. Em questão de segundos, tudo estará terminado.

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