Um pouco de humor

Em São Paulo, resolvi que compraria uma bateria nova pro celular. Estava descarregando muito rápido.
Cheguei ao lugar que me indicaram.
– Olá – falei pro chinês ao balcão.
Ele, sem sorrir, acenou de leve com a cabeça.
Fiquei meio sem graça, mas tudo bem…
– Você tem bateria pra este celular? – perguntei.
Ele, ainda sem qualquer expressão de bom negociante, como se sua pressão arterial estivesse em 9×6 – lento, lento – pegou o aparelho na mão, deu uma indiferente olhada e me perguntou:
– Oliginal ou palalela?
– Quanto é cada? – eu quis saber.
Gostei do preço da “palalela”, mas escolhi a “oliginal”.
Ao retirar a bateria velha, ele me disse:
– Batelia insada.
– O quê? – perguntei curioso.
– A batelia tá insada – reforçou ele. – Não segula caga.
– O que será isso? – me perguntei. – Bateria insada?
– Bateria o quê? – insisti em que ele fosse mais claro comigo.
– Insada! – foi mais enfático dessa vez.
– Como se fala “insada” em inglês? – eu falei, na esperança de acabar com a minha dificuldade.
– Non sei – ele respondeu secamente.
O ajudante, paulista – eu notei segundos depois – estava observando a gente e rindo. Aproximou-se e me esclareceu:
– Ele tá dizendo que a bateria tá inchada. Por isso, não segura carga.
Apenas suspendi as sobrancelhas com um “Hmmmmm”, aliviado por não trazer a vontade de saber o que era “insada” pra casa.
Paguei.
Ao sair, ouvi ele dizendo:
– Plóssimo! – chamando o cliente seguinte.

Por falar nisso, dei uma cochilada agora à tarde e acordei com a “cala insada”.

Há muito que viver ainda…

Antes de decidir escrever esta postagem, a frase que me veio à cabeça foi: “Deve ser muito triste ter consciência disso.”

Imediatamente, fiz outra sugestão às minhas palavras:

— Não seja idiota… – repreendi-me. — Deve ser? Não! É triste!

Passando em uma rua em que já tinha passado várias vezes, resolvi parar e conversar com ele, que todos os dias estava lá, fazendo belos trabalhos artísticos. E sabem de uma coisa? Incansavelmente!

Eu já tinha notado sua necessidade de muletas, o recurso extracorpóreo para auxiliar uma das funcionalidades de seu organismo, a vagarosidade de suas mãos, que, provavelmente, ficaram assim com o lento passar do tempo e o oportunismo de sua enfermidade, que, até minutos mais tarde, não sabia dizer qual era.

Entrei, falei “boa tarde”, e ele também. Elogiei seu trabalho, e ele agradeceu. Fiz algumas perguntas, e ele respondeu a todas.

Quando chegou a vez da pergunta que tanto queria fazer, tive dúvidas. Não sabia se ele reagiria com naturalidade ao assunto, se seria muita intromissão minha querer saber. Ela me veio à boca, mas titubeei. Então falei do tempo, do calor que fazia naquela tarde, fazendo passar a vez da pergunta.

Minutos mais tarde, quando o andamento do bate-papo pareceu dar permissão, perguntei-lhe, e ele me falou a respeito. Fiquei tocado…

— E qual é o tratamento para se ter a cura? – eu quis saber, esperando uma resposta otimista.

— Não tem – suas palavras saíram corajosas, conforme manuseava uma de suas ferramentas. — Daqui pra frente, é chegar ao fim. Só isso – concluiu ele.

Fiquei em silêncio, observando-o, artesão.

— Tem uns remédios só pra retardar a chegada…

— Mas há muito que viver ainda – insisti em que deveria ter mais esperança do que ele parecia possuir.

— Pra ser sincero, não tô fazendo muita questão disso, não – dessa vez, ele ergueu o olhar para mim. — Não é fácil. Já que tem de ser, que seja logo, lá pra junto dele – disse apontando um dos indicadores para cima. — E pronto…

Tchau!

A freada prolongada dos pneus de uma picape preta chamou a atenção de todos os clientes da padaria do Seu Nelson, que estavam sentados às mesas dispostas ao longo da calçada.

Dona Telma, com a sacola de pães até a boca, paralisou-se em um dos degraus da porta, assombrada e boquiaberta, desacreditando no que estava vendo. A porta do passageiro se abriu violentamente, e uma moça, em seus trinta e poucos anos, foi literalmente lançada para fora do carro, caindo ao chão, tendo os óculos de sol jogados para longe, que, segundos antes, se acomodavam em sua cabeça como se fossem uma tiara. A bolsa que imitava couro, e que descia à altura de seu quadril, caiu num estalo para ficar ao lado das lentes pretas.

— Volta aqui, seu vagabundo, seu sem-vergonha! Para aí! – gritou ela, levantando-se rapidamente do asfalto empoeirado para correr atrás do veículo, que saiu cantando pneus, distanciando-se, e, pela janela do motorista, saía um braço gesticulando deboche e desprezo.

Ao ver o carro desaparecer em uma esquina, desistiu da perseguição e parou no meio da rua. Permaneceu ali por alguns segundos, estática, visivelmente desacreditando no que acabara de acontecer. Virou-se para a silenciosa plateia de desconhecidos, fingiu estar sozinha, e começou a andar na direção de seus pertences deixados para trás. Agachou-se para apanhá-los. Levantou-se, ajustou a bermuda cáqui, que tão bem combinava com seu corpo bem cuidado, bateu as mãos na camiseta verde-escura a fim de se limpar e, antes de devolver os óculos à cabeça, refez o coque negro, que ficara desarrumado pela queda.

Um tanto claudicante, começou a caminhar – resmungando xingamentos – na direção de onde o carro tinha sumido, sem sequer dar importância ao fato de ainda estar no meio da rua.

A alguns passos mais lentos atrás, Dona Telma vinha com seus pães nos braços, fazendo o caminho de volta para casa.

Antes de chegar ao final do segundo quarteirão, a moça parou e debruçou a testa no poste de energia em frente ao prédio onde Dona Telma morava. Seu choro destampou a gritar, denunciando a tristeza da rejeição, o desespero de ter sido abandonada, igual a qualquer um que, de supetão, se sentiria desamparado no meio do nada, engolindo a saliva com gosto de adeus.

Dona Telma abraçou a sacola como se abraça uma criança de colo de modo a protegê-la do frio, na tentativa de recompor-se, preparar-se para passar pela desconhecida. Tentou ignorar a aflição que sentia ao ouvir os soluços da mulher repudiada, mas não conseguiu. Sentiu-se comiserada, teve impulso de parar, tocar-lhe o ombro e dizer-lhe algum tipo de conforto. Não o fez, no entanto.

No instante em que passou pelo poste, a moça levantou a testa e olhou, com seus lindos olhos negros, porém inchados e avermelhados, para Dona Telma. Raspou a garganta, ajeitou a camiseta, segurou a bolsa e saiu andando. Seguiu rua adiante, gaguejando a amargura daquele momento.

Dona Telma subiu os degraus da entrada de seu prédio, pensativa e entristecida pelo que acabara de testemunhar. Abriu o portão, entrou e encostou-o, sem olhar para trás. Já tinha visto o suficiente para lembrar-se daquilo tudo por muito tempo.

— Onde estarão as pessoas que, de verdade, se importam com essa moça, meu Deus? – Dona Telma perguntou-se a caminho do elevador. — Por que algumas pessoas se submetem a tal humilhação, fazendo vista grossa à própria dignidade?

— Mãe! Segura a porta do elevador pra mim! – uma moça gritou de lá do portão e veio correndo. — Obrigada – falou meio ofegante e beijou sonoramente uma das bochechas de Dona Telma. — Eu te amo, mãe.

— Eu mais ainda – respondeu a mulher, sentindo um leve nó na garganta.

Duas histórias em uma

— Você não vai escolher?

— Desculpe-me. Distraí-me – falei e peguei o cardápio, endireitando-me na cadeira. — Você já pediu? – perguntei à Silvana.

— Já! Você não ouviu? Não viu?

— Vamos ver – como se não tivesse ouvido suas perguntas, falei. — Quero arroz, um filé de frango grelhado e um suco de abacaxi com hortelã – informei ao garçom. — Ah, bem passado. Não quero ouvir a galinha cacarejando na minha boca, hein! – estimulei uma descontração, que foi correspondida pelo rapaz.

— Só isso? – Silvana me perguntou rindo.

— Só isso! Ando vaidoso ultimamente. Nada de abdome protuberante – terminei gargalhando, sem medo de ser notado.

O garçom se afastou depois de anotar.

— Você viu aquele casal de rapazes que passou aqui na frente agora há pouco?

— Não. Casal? Como assim?

— Estavam abraçados… Como dois namorados!

— And? – Silvana sorriu ao perguntar.

— Achei o máximo, uai!

— Hoje em dia, isso é muito comum.

— Sim – concordei. — Eram lindos, por sinal.

— Gostaria de tê-los visto.

— Só que eles se soltaram depois de sair desta calçada – informei-lhe. — Quando os vi vindo, fiquei a pensar na coragem que têm.

— Realmente. Não ter medo de se mostrar é uma questão de coragem.

— Sem dúvida. Apesar de já existir tolerância… – interrompi rapidamente e acrescentei – “aceitação” de uma grande parte da sociedade, ainda há muito preconceito permeando a mentalidade das pessoas – pensei por um instante e perguntei. — Que tipo de restaurante é este?

— Como assim? – ela esboçou espanto e curiosidade no olhar. — Restaurantes são lugares aonde as pessoas vão comer – fez um gracejo e balançou a cabeça rapidamente para lá e para cá.

— Eu sei disso, né? Tá vendo aquelas duas mesas ali? – falei apontando com uma inclinada de cabeça às quatro moças sentadas à direita, no lado de fora do cercado de ferro.

— Tô.

— São dois casais. Ou estou alucinando?

— Sim. São.

— Você já as tinha notado?

— Já.

— As quatro são lindíssimas, né?

— De fato, são – concordou comigo. — E super femininas; conseguiu perceber?

— Yes – gracejei. — Além delas, há outro casal de rapazes sentados atrás de você.

— São bonitos?

— Consigo ver apenas o rosto de um, e ele é, digamos, bonitinho. O outro tá de costas para cá.

— Se eu olhar para trás, vão perceber minha curiosidade?

— Provavelmente vão. Não olhe agora – falei rapidamente. — Mas me responda. Este lugar se trata de algum restaurante típico a esse público?

— Não sei dizer. Mas creio que é para quem quiser vir.

— Aonde você vai? – gritou um homem grisalho, andando a passos largos atrás de uma moça.

— Embora! – gritou ela de volta.

— E não vai pagar a conta?

— Que conta? – ela gritava ainda.

— Você vem ao meu restaurante, come e bebe o que quer e, de repente, sai andando? – nesse momento, todos os outros clientes estavam silenciosamente ouvindo o bafafá.

— Sim! A comida estava horrorosa.

— Horrorosa? Por que comeu tanto, então?

— Olhe aqui, fale baixo comigo. É uma ordem! – alertou a mulher, apontando o dedo para o nariz do homem, chegando bem perto e deixando seu rosto a menos de dois palmos do dele.

— Ordem? Ordem é você pagar! – berrou o proprietário do estabelecimento.

— Não vou pagar!

— Ah! Vai sim.

— Vá falar com meu marido, então.

— Onde ele tá?

— Dormindo debaixo do viaduto – respondeu ela.

— Viaduto?

— Isso mesmo. Não vê como estou vestida? Olhe para mim! Sou uma moradora de rua! – disse apontando para as calças azul-escuras e a blusa de frio da mesma cor.

— Brian! Brian! Venha aqui – ordenou o homem a um rapaz robusto, de academia (marombeiro?), que prontamente se aproximou e tinha a visível intenção de intimidar a moça com seu tamanho.

— Afaste-se! – gritou ela ao rapaz. — Você não me dá medo!

Uma mulher se aproximou, em sua blusa e saia brancas, elegante com seu colar, porém sisuda.

— Atrevida! – disse olhando para nós. — Acreditam que ela entrou no restaurante falando em inglês e contou uma história toda maluca?

— É mesmo? – perguntei, emparelhando-me à sua indignação.

— Sim!

— Todos nós ficamos desconfiados de que algum problema teria. Acho que Brian resolverá a situação.

— Também acho – respondi. — Com o tamanho dele, e seus olhos verdes, a moça terá duas alternativas. Sair correndo de medo ou se jogar nos braços dele. Dependerá de sua perspectiva, né? – ri quase alto.

A mulher caiu na gargalhada.

Em pouco tempo, policiais começaram a chegar e a cercá-la. No final, havia uns dez, acho. Ainda assim, a moça continuava, destemidamente, a falar em voz alta. Inclusive com os policiais.

Brian resolveu ter uma iniciativa. Arrancou a mulher do meio do círculo, abraçou-a com um dos braços e saiu, bem devagar, conversando com ela, e em voz baixa.

Minutos mais tarde, ela saiu andando embora. Os policiais se foram. Brian voltou ao posto, à porta. O casal retornou ao trabalho.

De lá de dentro, ouvi a mulher de branco, ao caixa, recontando o acontecido a um cliente.

— Se eu contar uma história em inglês para você, você me dá um descontão na conta ou, quem sabe, uma chance de ir embora sem pagar? – perguntei rindo a ela.

Ela riu comigo.

Fomos embora. Não sem pagar, claro!

OBS: Se você leu até o fim, escreva “Li tudo” em comentários. Obrigado por vir aqui e ler. ❤

Senhora bonita!

No metrô Anhangabaú, uma senhora caminhava, muito lentamente, na direção da saída. Tenho certeza que ela não tinha menos de oitenta anos.

As pessoas, apressadas, iam e vinham. E ela, com o olhar atento ao chão – olhando somente às vezes para frente –, parecia um ponto em câmera lenta, enquanto o mundo ao seu redor girava a todo vapor.

No entanto, para combater meu instintivo abalo de miseração (gostaria tanto de ter usado outra palavra, mas foi o que senti no momento em que a vi), suas sobrancelhas eram visivelmente bem remodeladas, e seu batom estava se exibindo discretamente. Suas roupas? Daquelas que já estiveram na moda em outros tempos, porém cuidadas e, até que vaidosamente, asseadas. Ah, quase me esqueci de mencionar. Seus cabelos, à altura dos ombros, que lembraram Sílvia Pfeifer por um instante, eram branquinhos como a neve.

— Olá. A senhora precisa de ajuda? – perguntei.

— Não. Tá tudo bem. Obrigada – respondeu erguendo o olhar para nós e, em seguida, olhando de volta para ver onde pisava.

— Mora aqui perto? – insisti em conversar, enquanto Silvana e eu andávamos ao seu lado, e o povo não parava de ir, nem de vir.

— Na Santa Cecília – ela me respondeu.

— E aonde a senhora tá indo? – falei sorrindo, esperando que ela não me chamasse de enxerido.

— À casa de uma amiga. Ela e eu vamos jogar baralho e tomar chá – informou-me com sua bela concordância verbal.

— Oh! É isso aí – falei contente por saber que ela estava indo se divertir. — Bons jogos e bom chá – terminei.

— Obrigada – disse-me sorrindo.

Voltamos a andar rápido, e ela ficou para trás.

Passamos pela catraca e saímos à multidão. Era aniversário da cidade.

Sinhá. Nossa Madrinha.

Conheci muitas pessoas generosas ao longo da minha vida. Uma delas é a Sinhá, que, na verdade, era mais comumente chamada de Madrinha. Com o tempo, passei a chamá-la assim também.
Eu a via nas férias, ou nos feriados prolongados, quando vinha de São Paulo, porque ia, toda vez em que vinha, visitá-la. Se fosse durante o dia, Madrinha jamais estava, mesmo com mais de seis décadas nas costas, parada em algum canto a contemplar o passar dos dias. Cozinhando, limpando o fogão, a pia, lavando a roupa da família… a quem era absoluta e prazerosamente servil. Se durante a noite, não muito tarde, ia para lá e para cá, preparando isso ou aquilo de comer, e lembro-me das raras vezes, o contrário da maior parte das pessoas nessa faixa de idade, em que a vi desfrutar da viciante distração da tevê.
Hoje, Madrinha não mais faz essas coisas todas, porque não mais anda. Não mais reconhece os seus familiares, não se lembra de nada mais, e seu único e inevitável canto é o leito que a sustenta acima do chão. Cansou-se. Teve a sorte de se cansar.
Felizmente, tem os seus de quem recebe o merecido cuidado.
Lembro-me nitidamente, como se tivesse sido ontem, do gostoso café fresquinho de Madrinha, do qual não mais podemos desfrutar, mas que ficará na minha lembrança enquanto a memória, a mim, permitir.
Boa noite.
Ah, e você? Conhece alguma Madrinha? Ou já conheceu?