Mão Esquerda – Capítulo 5

Olavo acordou suado na manhã seguinte. As estrelas com as quais sonhara enquanto estava no hospital foram visitá-lo de novo. A maior tinha olhos, nariz e boca dessa vez. Ela sorriu-lhe depois de adverti-lo: Seja justo nas suas decisões. A vida e a morte são duas coisas igualmente importantes. Ela não tinha voz, mas Olavo entendeu o recado.  

            — A vida e a morte?

            Levantou-se e foi direto para o banheiro.   

— A vida e a morte… – repetiu, enquanto a água morna escorria-lhe sobre o corpo. — A vida e a morte…

Ele saiu do banheiro com uma toalha na cintura e dirigiu-se à cozinha. Como todas as manhãs, era de um bom café que precisava.

Houve um arranhado na porta. Ted queria entrar e ganhar biscoitos de água e sal.

— Um momento, amigão – Olavo falou alto e foi ao quarto. Dava tempo, pois ainda levaria alguns minutos para a água ferver. Tirou a toalha da cintura e jogou-a sobre a cama e vestiu uma troca de roupa batida, porém limpa e cheirosa.

Quando abriu a porta da cozinha, Ted, seu golden retriever, estava sentado sobre as patas traseiras, no aguardo.

— Oi, Ted. Como passou a noite?

Ted ergueu-se e botou as patas dianteiras nos ombros do dono. Em seguida, produziu um som que Olavo nunca o ouvira fazer. Não era de lamento, Olavo entendeu que não. Era de orgulho e de agradecimento misturados.

— Do que você está falando? De ontem à tarde?

O animal pendeu a cabeça como para entender o que Olavo estava dizendo.

— Não concorda que a cólica da enfermeira e o acidente dos assassinos de animais tenham sido puras coincidências?

O golden retriever deu um latido grave, desceu ao chão e dirigiu-se à cozinha. Parou ao lado da porta do armário onde sabia que os biscoitos estavam.

Enquanto Ted comia os biscoitos e, de vez em quando lambia o leite gelado, Olavo caiu em pensamentos. Nunca ouvira ou entendera a “voz” de Ted, não de modo claro. Aquela fora a primeira vez.  

Mão Esquerda – Capítulo 4

Durante as duas semanas subsequentes, eu não conseguia tirar os acontecimentos da cabeça. Havia momentos em que me lembrava de dona Eliza (a cena em que ela era levada para algum lugar dos recém-mortos no hospital ainda me entristecia), às vezes pensava no garoto de 14 anos e me sentia mais melancólico ainda, imaginava a falta que ele faria em seu lugar à mesa, nas incansáveis vezes em que sua mãe choraria por sua ausência (porque mães – normais – choram por seus filhos diante do mais ínfimo motivo). (Por falar em mãe, que a minha esteja no melhor lugar do céu.) De vez em quando pensava na enfermeira cruel e me atordoava com a inacreditável coincidência de desejar-lhe uma crise de cólica renal e de ela ter tido a crise de cólica renal. (Claro que foi coincidência, eu me dizia.) E pensava no motorista embriagado e drogado que bateu de frente comigo na pista. (Mais tarde, eu soube que ele havia falecido instantaneamente com a colisão.)

            Dois meses mais tarde, algo muito esquisito aconteceu comigo. Era quarta-feira, por volta das 18 horas, um calor insuportável, e eu estava fazendo caminhada. Por causa da meleca de suor, eu queria terminar os mil metros restantes o mais rápido possível para chegar em casa e tomar um banho frio (embora nunca no calor fora possível conseguir um banho frio, pois os reservatórios de água das residências, por causa de ficarem acima do nível do telhado, expostos ao sol, nunca ofereciam água fria) e relaxar um pouco, antes de comer alguma coisa. De repente, um carro em disparada, muito acima da velocidade permitida dentro da cidade, surgiu na avenida. A velocidade, a gritaria dos três ocupantes e o volume da música de mau gosto chamaram a atenção de todos que caminhavam, dos frequentadores dos bares, de moradores e de qualquer um que por ali se encontrasse no momento. Quando o carro passou por mim, parei para observar a imprudência. Foi aí que vi, amarrados no para-choque traseiro, quatro animais de porte pequeno – àquela altura quatro gatos mortos – sendo arrastados no asfalto.

            — São eles – um homem semi-careca, com camiseta cavada, bermuda larga e tênis batidos falou para mim.

            — Eles, quem? – perguntei.

            — Você não soube?

Fiquei esperando-o continuar.

— Esses são os sujeitos que andam matando gatos e cães dessa maneira cruel. O jornal da cidade e os da região têm falado deles.

            — Isso é um horror – falei.  

            — Sabe o que acho? A polícia não pegou esses sujeitinhos ainda porque tem medo deles. É tudo um bando de marginal.  

A ira que senti no momento foi idêntica à que senti quando a enfermeira Iolanda Cruel disse que a morte de dona Eliza representava um gasto a menos para o hospital.

— Quem tem de morrer é eles – desabafei, fazendo um sinal no ar com a mão. E reiniciei a caminhada de volta para casa.

De repente, houve uma explosão no final da avenida. Não olhei para trás nem para os lado, mas imaginei todo mundo parado de novo a fim de ver o que acontecera. Acidente, pensei. Vai ver é com o carro dos assassinos de animais.

E de fato tinha sido um acidente, com eles, os assassinos das almas inocentes. Na noite daquela tarde, a emissora local deu a notícia de que três ocupantes de um carro – arrastando animais mortos – tinham sido queimados até a morte após colisão com um dos coqueiros da Avenida dos Belos Coqueiros. A polícia nos informou – terminou o âncora –, que no carro havia esqueletos estorricados de três gatos e dois cães, todos dentro de uma gaiola. De qualquer forma, os animaizinhos estavam condenados à morte brutal. 

Mão Esquerda – Capítulo 2

O ocorrido do capítulo anterior é verdadeiro, embora possa soar para qualquer um uma grande e ridícula besteira, coisa de louco. E o Olavo da narrativa sou eu. Então, deixe-me contar a partir do começo.   

Ao longe, vozes conversavam sobre os mais diferentes tipos de assuntos, objetos tilintavam e eu podia ouvir um vaivém incansável. De repente, uma voz feminina me chamou pelo nome, bem perto de mim, arrancando-me bruscamente do que até então parecia ser um sonho. Abri os olhos e vi uma mulher em um roupão cuja cor não se decidia entre o azul e o verde. O gorro dela tinha figurinhas de várias cores.

— Boa noite – disse ela, com um sorriso honesto no rosto. 

Imediatamente, a minha memória recobrou as lembranças. Eu tinha sofrido um acidente de carro e, por isso, estava em um hospital. A mulher sorriu para mim de novo e me informou que a cirurgia correra bem.

— Cirurgia? – perguntei.

— A hemorragia em seu abdome está controlada. O casal que o trouxe ao hospital salvou a sua vida – informou-me ela, já dando atenção ao ruído metálico atrás dela.  

Como se eu não estivesse mais ali, ou como se eu tivesse perdido a importância em um estalo de dedos, ela saiu apressada na direção de um leito móvel sendo empurrado para o leito fixo ao lado do meu. O corpo de alguém magro e comprido foi colocado em cima dele. Em seguida, a cama de rodinhas foi levada para fora da UTI e as pessoas que ficaram passaram a dedicar-se à instalação do recém-chegado. Alguém pronunciou a palavra “entubar” e a frase “Se ele conseguir sair dessa” de modo profissional. Então é um homem que está à minha direita, pensei. Depois de sons estranhos, os quais associei com “entubação”, a mulher que tinha me acordado saiu de trás do biombo (digo “biombo” porque se parecia com um biombo – inteiriço, no entanto) foi falar com outra mulher, que estava atrás do balcão circular, localizado bem no meio da UTI, e pediu-lhe alguma coisa.  Ao voltar, dirigi-lhe a palavra. Minha voz saiu estranha e rouca, como se ameaçasse falhar. A honestidade retornou ao seu rosto, e ela se aproximou com prontidão.   

— O que aconteceu com ele? – perguntei.

Ela pareceu aliviada ao entender que o que eu queria era algo corriqueiro.

— Daqui a pouco venho aqui – ela respondeu, retomando seu destino com determinação.

Enquanto o “daqui a pouco” dela se transformava em horas, descobri que o homem comprido era mais comprido do que o normal, pois podia ver seus pés para fora da cama e do biombo. A cor da pele era bonita e saudável, e revelava a flor da idade.

Finalmente, a mulher de gorro cheio de figurinhas coloridas se postou ao meu lado, perguntando se estava tudo bem comigo.

— Acho que sim – respondi.

— Ótimo – disse ela, começando a se distanciar.

— O que aconteceu com ele, doutora? A senhora é doutora ou enfermeira?

— Médica. — Ela voltou um passo para o meu leito e me informou que o garoto, de 14 anos, havia caído de sua bicicleta, batido a cabeça no meio-fio e sofrido séria lesão craniana. — Se ele sobreviver, será trabalho da interferência divina.

Ao observá-la ir para outro leito (perto da entrada da UTI e isolado com vidro), convenci-me de que era privilegiado e sortudo. Mas, de repente, senti-me mal por sentir-me desse jeito, por estar vivo e consciente, enquanto que o garoto ao meu lado estava inconsciente e sem garantia qualquer de voltar a enxergar este mundo outra vez. E pior: se ele morresse, aos 14 anos, por que a chance de usufruir da vida lhe teria sido negado?

Na manhã seguinte, o coração dele parou de bater. Fiquei triste e chocado, e me emocionei ao vê-lo ser transportado para fora, dessa vez sem urgência qualquer.

Mais tarde, eu estava em meio a um questionamento a respeito dos méritos e deméritos que nos são atribuídos ao longo da vida (Por que enquanto uns choravam, outros vendiam lenços? Por que eu tinha sido poupado e o garoto não? Quais foram os méritos meus e quais foram os deméritos daquela alma tão jovem?) quando outra maca entrou apressada, dessa vez indo para o leito da minha esquerda. A olhada rápida que consegui dar (soerguendo a cabeça) me fez ver que se tratava de uma mulher com idade para ser minha avó. De novo, uma movimentação – quase que sem palavra trocada – ocorreu atrás do biombo. Não sei quanto tempo depois, mas sei que não foi menos de uma hora, uma das enfermeiras se aproximou do leito da mulher.

— Dona Eliza, a senhora está sentindo alguma dor? – perguntou a enfermeira.

Não ouvi resposta, mas entendi que dona Eliza fizera um gesto negativo porque a enfermeira perguntou-lhe se ela tinha certeza de que não.

De madrugada, acordei com outra movimentação, alvoroçada. Agucei os ouvidos e entendi que era em volta de dona Eliza. O ruído que vinha de lá era parecido com o ruído de quando se enche o pneu de uma bicicleta com bomba de ar manual, só que acompanhado de um cicio metálico. Um homem à beira da meia-idade surgiu correndo pela porta de entrada, dirigindo-se ao leito da idosa. Ele estava fechando o zíper da calça e tinha a cara amarrotada de sono.  

— Dê uma mão aqui, doutor. — A voz que fez o pedido saiu praticamente suplicante, como se a força dele fosse a força que faltava, e o cicio passou a soar mais forte.

Nesse momento, meu coração estava acelerado, porque eu sabia que estava “testemunhando” uma tensa disputa entre forças potentes (mãos profissionais insistindo na vida e a morte pairando sobre aquele leito, anunciando-se iminente). Passei a desejar que, depois de uma daquelas compressões vigorosas, dona Eliza tossisse e recobrasse o fôlego. E que alguém dissesse que os batimentos cardíacos dela haviam retornado. Mas as compressões pararam. Ninguém pareceu comemorar, e todos – eram umas cinco ou seis pessoas – saíram de trás do biombo. Enquanto cada um ia para outros deveres, uma enfermeira passou na frente da minha cama, tirando as luvas das mãos.

— Um gasto a menos para o hospital – disse ela, em meio a um suspiro de cansaço.

Eu a odiei naquele momento, e desejei que ela tivesse uma crise de cólica renal, das mais excruciantes, e suplicasse por horas para que o hospital se empenhasse – com o que tinha e com o que não tinha – a devolver-lhe a paz do bem-estar.    

Minha ira se amolentou quando dona Eliza passou transportada para fora da UTI, estática, sem vida e escondida por um lençol sobre a maca de rodinhas. De novo, a tristeza e a emoção me assaltaram. Lembro-me de ter pensado que, se eu pudesse, teria pulado da minha cama para alcançá-la e tocar-lhe o rosto, oferecendo-lhe metade dos dias de vida que me restavam.

No início da manhã seguinte, os funcionários da UTI já eram outros; um novo turno acabara de se iniciar. Um homem de aproximadamente sessenta anos, cabeça quase toda branca e óculos antiquados, chegou perto da minha cama e verificou algo acima da minha cabeça. Ele não me cumprimentou nem olhou para mim. Mas eu esperei que pelo menos um aceno de cabeça fizesse ao se afastar. Não o fez. Foi conversar com um enfermeiro robusto, o qual me visitou minuto depois. (Somente no quarto foi que eu soube o que o médico dissera ao enfermeiro. A minha pressão estivera um pouco alta.) Ele mexeu em algum dos frascos da medicação que estava conectada ao meu corpo e, de repente, eu estava vendo o céu, escuro e com estrelas girando em câmera lenta. Eram incontáveis estrelas; somente uma possuía tamanho destacado. Ela flutuou por entre as menores e parou no rumo dos meus olhos. Depois do instante em que pareceu me observar, como se olhos tivesse, lançou um feixe luminoso em minha direção, alvejando a minha visão em cheio. Subitamente soergui meio corpo, apavorado, gritando por ajuda.  

— Tudo bem, tudo bem. — Uma enfermeira de sorriso e toque que transmitiam paz estava ao meu lado. — Foi apenas um sonho, nada mais. Tranquilize-se.

Naquela tarde, ouvi parte da conversa entre o enfermeiro robusto e a enfermeira de sorriso bonito, cujo nome era Danielle.

— O que aconteceu com Iolanda? – ela inquiriu.

— Teve cólicas renais horríveis, pela primeira vez na vida. Nem conseguiu ir para casa. Ficou internada na ala 2 – ele respondeu.

Mão Esquerda – CAPÍTULO 1 – Ed Zaccaron

O verão não havia chegado ainda, mas o sol estava escaldante. A verdade era que não precisava ser verão para o sol ser escaldante a qualquer dia e hora do dia naquela região do estado. E, no inverno, vinham raras frentes frias, rápidas, que não matavam ninguém.

Na calçada do outro lado, entre poucos hexágonos de cimento estragados pelo tempo, onde podia-se ver areia, pardais acocorados se remexiam alegremente. Olavo trancou a porta do carro sem acionar o alarme.

— Espero que você esteja certo, Ted – murmurou, praticamente um ventríloquo. — Ele tirou o celular do bolso de trás da calça e viu a hora, 16h17. Faltava menos de uma hora para o sepultamento. 

A sala de velório de Santo Queiroz estava cheia, tão cheia que as pessoas do lado de fora pareciam ser aquelas que ainda não tinham conseguido entrar para ver o morto. Olavo saiu da sombra da árvore e cruzou a rua. Ao chegar perto da multidão, sentiu olhares de curiosidade, e alguns de estranhamento.

— Com licença – ele falou, sério.  

Alguns, por reflexo, deram passos para o lado, oferecendo-lhe a entrada. Mais à frente, voltou a pedir passagem. Em um esforço maior, enquanto avançava adentro, foram atendendo-lhe ao pedido. (A testa e as axilas de Olavo já se encontravam encharcadas.)   

Perto do defunto, havia um homem sentado, com os cotovelos apoiados na beirada do caixão, a cabeça repousando entre as mãos. Ele levantou o olhar para observar Olavo. Por um breve instante, seus olhos tristes estudaram-no, e se voltaram para baixo, a fim de continuarem a enxergar através da blindagem. Ao lado, encontrava-se uma mulher com idade aproximada à do homem. O olhar dela, além de estranhamente familiar, estava ainda mais triste, vermelho de tanto derramar lágrimas. Abraçando-a, cabisbaixo e indiferente à multidão, um rapaz com traços semelhantes aos dela e aos do homem. (Olavo ainda se sentia alvo de diversos olhares.)

No caixão, apesar de praticamente irreconhecível por causa dos cortes e do disfarce da maquiagem, o rosto do morto ainda conseguia mostrar restos de beleza. Para quem estivesse enxergando-o com o mesmo olhar de Olavo, era uma pena. Ainda era jovem para deixar este mundo. Para quem não, tratava-se apenas das coisas da vida, ou da morte.     

Uma mulher com vestido florido, batom avermelhado e cabelo curto abriu caminho por entre a multidão e se aproximou dos pais do morto. Atrás dela, um homem entre vinte e cinco e trinta anos. Primeiro, ela abraçou a mãe do morto, dizendo que sentia muito. O abraço e as palavras saíram-lhe sinceros. Depois, vendo que o pai não anunciava desejo de se levantar, acariciou o ombro dele e repetiu-lhe as palavras. O acompanhante de quase trinta anos não teve coragem de se dirigir ao casal. Depois de mais uma olhada – a segunda e última – ele afastou-se discretamente para refazer o caminho de volta à saída. Olavo ouviu o pensamento do rapaz, cujo nome era Saulo. Se Saulo pudesse voltar no tempo, manter-se sóbrio o suficiente para evitar que o carro caísse pela ribanceira, voltaria. Qualquer coisa, menos aquele funeral, seria melhor. Qualquer coisa, menos os interrogatórios policiais e os olhares acusativos, seria bem melhor. Mas Olavo também soube que, no fundo, Saulo experimentava o alívio de não ter sido ele lançado pelo para-brisa e colidido com o tronco da árvore, obtendo o pescoço quebrado. Olavo se perguntou se o motorista Saulo teria merecido a punição da morte também. Ainda precisava analisar a situação.

Olavo esticou o braço esquerdo e posicionou a mão sobre a blindagem do caixão, quase tocando um dos cotovelos do pai do morto, que o encarou, dessa vez com nítido interesse. A esposa fez a mesma coisa. Mas Olavo deu a entender que não notara (ou que não se importava). Devagar, passou a fazer movimentos giratórios com a palma sobre a área do coração do falecido, sem saber se era daquele jeito mesmo que deveria fazer. Se pelo menos não houvesse a blindagem, tocá-lo diretamente facilitaria? (Nesse momento, todos os que estavam ao redor encaram-no, perguntando-se quem era o estranho, e o que significavam aqueles gestos.) Olavo fez o último movimento e retraiu o braço. A blindagem, de transparente, ficou embaçada, como se o morto tivesse passado a respirar.

O olhar do pai do defunto ganhou um misto de perplexidade e assombro; o da mulher também, a ponto que ergueu-se de pé.

Os presentes deram início a um cicio, que, em poucos segundos, tornou-se uma balbúrdia.

Lá fora, perto do carro, Olavo olhou para trás. Veladores estavam se atropelando para entrar e compreender o motivo do tropel; outros muitos corriam para fora, assombrados.

Um instante depois, houve um estrondo, como se um caixote pesado tivesse despencado de significante altura. O tropel tornou-se gritaria, e mais pessoas, como cardumes fogem de piscívoros gigantescos, disputavam a porta de saída. Um homem semi-calvo fez um aceno de satisfação para Olavo. Olavo sorriu-lhe e acenou de volta.               

Quando deu partida no carro, não havia mais ninguém na frente do anexo do cemitério. Exceto o pai do morto, a mãe do morto, o homem semi-careca e o morto, que agora era ex-morto, desnudando-se como se o que vestia fosse uma grande sujeira. A mãe do morto caiu desmaiada.

Eu pensei que ele me amaria para sempre – Capítulo 2

Na segunda-feira, logo de manhã, fui  à entrevista de trabalho no banco. O sol não estava apenas iluminado a cidade, estava deixando-a mais encantadora. Eram os meus olhos que estavam enxergando tudo bonito. 
— Já trabalhou em banco antes? – o entrevistador me perguntou.  
            Respondi que não.
            — E por que escolheu o nosso?
            Eu poderia ter dito que não tinha escolhido. Que um amigo do Bernardo, o João, tinha me oferecido uma vaga. Não sei onde poderão precisar de alguém. Apenas vá e preencha uma ficha. Alguém vai conversar com você, João me instruiu. E, obviamente, o homem que estava ali, diante de mim, sabia que qualquer resposta que eu desse serviria.
            — Tenho certeza de que vou aprender muito trabalhando aqui. Cada vez que eu aprender mais, mais poderei servir ao banco – respondi.
            Na hora, me pareceu uma resposta razoável, mas, depois, achei-a idiota. Bem idiota.


           

Eu pensei que ele me amaria para sempre – Capítulo 1

Eu me lembro daquele seis de janeiro como se tivesse sido ontem.

Quando olhei para ele, ele estava olhando para mim. A calçada estava cheia de pessoas indo e vindo, interessadas em encontrar um presente, um souvenir para si, para alguém mais, talvez. Meu coração estava disparado de um jeito que nunca disparara antes.  
            — André, anda logo! – Alfred, quase na esquina, gritou para mim.
            Apressei o passo, mas sem tirar os olhos dos olhos dos dele, e ele, sem tirar os dele dos meus.
            No domingo seguinte, lá estava ele de novo. Havia um homem ajudando-o a vender os quadros feitos com linhas trançadas. As cores e desenhos eram muito bonitos. E o homem tinha os olhos e sobrancelhas parecidos com os dele.
            Ele me viu, olhou de viés para o homem, que estava distraído, voltou a olhar para mim e me deu um sorriso tímido. Senti vontade de ficar ali para sempre.
            Uma semana depois, nós estávamos trocando as primeiras palavras perto do meio-fio, no outro lado da rua. Não tivesse ele facilitado o encontro, nada teria acontecido. Conversamos sobre algumas coisas, exceto sobre o que exatamente um queria do outro.
            No final da conversa, ficamos de nos reencontrar porque ele queria aprender a falar inglês. Eu lhe contara que queria ser teacher.
            — Então, vou te ver na quarta-feira da semana que vem às 8 da noite – ele afirmou enquanto anotava em sua agenda. Ninguém jamais tinha me falado que pretendia me ver do modo como ele falou. Eu me senti bem, e, pela primeira vez, querido, do jeito que se quer alguém.
            — Isso – respondi, feliz.  
Assim que passei pela porta da quitinete, Bernardo disse:
— Eu sei aonde você foi. — Ele falou com tom de adivinhação.
Eu deixei um sorriso escapar.
— Então fala. Aonde fui?
— Conversar com o bonitão da feira de artesanato.
— É.
Alfred fez cara de contente. Uma das grandes virtudes dele era ficar contente com o bem-estar e conquista alheia.
— Como foi? Contei tudo para ele. Bernardo também sempre foi um bom ouvinte.